Algumas visões da bola de cristal da política americana

Conquista republicana da maioria no Senado pode não alterar seu estado de disfunção atual

GAIL , COLLINS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2014 | 02h00

Por enquanto, tenho a certeza de que você está se perguntando: "se os republicanos assumirem o controle do Senado nas eleições da próxima semana, o que isso significaria para mim?". Excelente pergunta.

"Faremos as coisas acontecerem, e isso significa um basta à agenda de Obama", disse o belicoso senador Pat Roberts, republicano do Kansas.

Notou que "faremos as coisas acontecerem" é imediatamente seguido por "Basta"? O que acha que isso significa? Bem, os americanos sabem que se os republicanos conquistarem a maioria, todas as comissões do Senado teriam presidências republicanas. A Comissão de Energia, por exemplo, poderia ser presidida por Lisa Murkowski, do Alasca, uma moderada que está no bolso de lobbies de petróleo e gás.

Isso seria uma mudança dramática da situação atual em que a Comissão de Energia é presidida por Mary Landrieu, da Louisiana, uma moderada que está no bolso de lobbies de petróleo e gás.

Num registro bem mais empolgante, a Comissão de Meio Ambiente poderia acabar nas mãos de James Inhofe, o autor de The Greatest Hoax: How the te Global Warming Conspiracy Threatens Your Future (O grande engodo: como a conspiração do aquecimento global ameaça seu futuro, em tradução literal).

Sob controle republicano, o Senado seria um órgão extremamente aberto no qual o partido da minoria receberia a permissão - melhor, o convite - para apresentar emendas inteligentes destinadas a fazer a maioria excluir votos difíceis ou embaraçosos que poderiam ser usados contra ela na próxima eleição.

O líder da minoria, Mitch McConnell, queixou-se da mão pesada dos democratas nisso durante anos e com certeza estará ansioso para mudar as coisas se ficar no controle.

E o que dizer da substância? Os eleitores republicanos teriam todas as razões para esperar que o primeiro item da agenda de McConnell seja repelir o Obamacare (termo pejorativo para o programa de reforma do sistema de saúde encaminhado ao Congresso por Obama e aprovado).

Mas muitos senadores republicanos têm posições sobre a Affordable Care Act (nome oficial do Obamacare) que são extremamente nuançadas. Livrem-se do programa, mas conservem a parte sobre pessoas com condições pré-existentes. Ou o pedaço que permite que jovens adultos permaneçam nas apólices de seus pais.

O próprio McConnell disse que deseja que seu estado natal, Kentucky, mantenha sua versão extremamente popular do programa, que é conhecido como Kynect ("o website pode continuar, mas em minha opinião os melhores interesses do país seriam alcançados arrancando Obamacare pela raiz").

O futuro dirá o que será dessa legislação.

Espíritos cínicos poderiam presumir que, com uma maioria republicana, o Senado simplesmente continuaria em seu estado de disfunção atual, trabalhando diligentemente sobre uma agenda (tirar o financiamento do Planejamento Familiar, estrangular a Agência de Proteção Ambiental no seu berço) que morrerá por falta de 60 votos. Os democratas, por sua vez, se apaixonariam mais uma vez pela obstrução parlamentar.

Reformas. Ou talvez não. Alguns acreditam que os republicanos estariam ansiosos para provar que eles realmente, de fato, genuinamente, podem conseguir que as coisas sejam feitas e trabalhariam com a Casa Branca em matérias de interesse comum, como a reforma fiscal.

Reforma fiscal provavelmente significaria reduzir algumas alíquotas e compensar a receita perdida fechando algumas brechas de evasão fiscal em outras partes. A Comissão de Meios e Recursos da Câmara fez algum trabalho sobre isso recentemente e o presidente da comissão de fato anunciou um plano. Aí, John Boehner (republicano, presidente da Casa) o ridicularizou. O plano não foi à votação. O presidente está se aposentando.

Há algumas matérias em que uma maioria republicana no Senado faria uma diferença crucial. Uma delas é o orçamento. Esse é extremamente importante, mas como podemos passar os próximos dois anos discutindo abismos fiscais e as regras de reconciliação, não parece justo nos fazer começar cedo.

Há também a questão das nomeações presidenciais. "Duas palavras: Suprema Corte", disse Chuck Schumer, o terceiro senador democrata mais votado. "Se eles têm a maioria, têm muito mais influência em quem é nomeado." Isso poderia ter impacto nas próximas décadas. Mas pressupõe que haverá vacâncias na Suprema Corte. No lado positivo, os próximos dois anos poderão ser tempos propícios para orações pela boa saúde de Ruth Bader Ginsburg.

Presumindo que os magistrados atuais continuarão em boa forma, os republicanos ainda poderiam bloquear outras nomeações presidenciais e nós teríamos de nos acostumar com o governo por dirigentes interinos.

'Czar do Ebola'. Mas isso é muito perto da norma. Um representante republicano denunciou recentemente o presidente Obama por criar um "czar do Ebola" em vez de entregar a função ao Cirurgião-Geral (dirigente do serviço de saúde pública federal), aparentemente, sem perceber que não tivemos nenhum Cirurgião-Geral por mais de um ano graças à oposição da Associação Nacional do Rifle ao indicado pelo governo ao cargo.

Rastreado pelo The Huffington Post (jornal eletrônico), o deputado Jason Chaffetz, de Utah, alegou que realmente sabia que o posto de Cirurgião Geral estava vago e que qualquer um do escritório poderia fazer o trabalho do Ebola. "Sei que houve alguma confusão por lá, mas não acho que eu fiquei confuso", ele disse, bravamente.

Percebe, o deputado Jason Chaffetz está perfeitamente disposto a conviver com um Cirurgião Geral interino. E talvez alguém possa convencer Eric Holder (atual procurador-geral dos EUA) a ficar afastado por mais algum tempo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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