Brendan SMIALOWSKI / AFP
Brendan SMIALOWSKI / AFP

Artigo: Alguns valores de Bush pai merecem ser mantidos

Ex-presidente pertenceu a uma aristocracia que cultivava certa compostura e deu lugar a uma elite obcecada pela meritocracia

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2018 | 05h24

A morte de George H. W. Bush provocou muita nostalgia no antigo establishment americano, do qual ele era indiscutivelmente membro proeminente. Provocou também um inflamado debate entre comentaristas sobre esse establishment no qual o ingresso era amplamente determinado pelos laços de sangue e pelas conexões. Até os anos 60, era preciso ser branco, protestante e anglo-saxão para se chegar a quase todas as posições de poder nos Estados Unidos. Entretanto, será que não há nada de bom a se dizer sobre esse sistema que tanto discriminou o restante da população?

Na verdade, há. Com todos seus defeitos – e era com frequência intolerante, em alguns lugares, segregacionista, e quase sempre excludente –, a velha aristocracia anglo-saxã branca e protestante tinha um senso de modéstia, humildade e espírito público que parece não existir na elite de hoje.

Muitos dos melhores momentos de Bush – sua atuação durante a queda do comunismo, sua decisão de não ocupar o Iraque após a primeira Guerra do Golfo, sua aceitação do aumento de impostos para fechar o déficit orçamentário – foram marcados pelo comedimento, por uma capacidade de fazer a coisa certa, apesar da enorme pressão para contentar a opinião pública. 

É como se essas antigas virtudes fizessem parte da natureza da velha elite. A aristocracia estava segura de seu poder e influência, o que lhe permitia pensar no destino dos EUA em termos mais amplos, contemplando o longo prazo e ficando acima do interesse próprio – porque o próprio interesse já estava assegurado. Ela sabia que sua posição era de certa forma acidental e arbitrária, o que levava seus membros a aderir a determinados códigos de conduta – modéstia, discrição, cavalheirismo, responsabilidade social. 

Se você acha que estou criando uma fantasia sobre um mundo que nunca existiu, deixe-me dar-lhe um eloquente exemplo. Na viagem inaugural do Titanic, as cabines de primeira classe estavam ocupadas pelos “Forbes 400” da época. Quando o navio começou a afundar e ficou claro que não haveria botes salva-vidas para todos, aconteceu algo impressionante.

Como conta Win Wade, os homens deixaram que mulheres e crianças embarcassem antes nos botes. Na primeira classe, 95% das mulheres e crianças se salvaram, em comparação aos 30% de homens. Embora os passageiros de primeira classe tivessem, é claro, acesso mais fácil aos barcos, a verdade é que alguns dos homens mais poderosos do mundo seguiram um código não escrito de conduta, mesmo isso significando morte certa para eles. 

As elites de hoje escolheram um modo de vida muito mais aberto, mais democrático, em grande parte decorrente da educação. Os que vão bem nos exames entram nas melhores escolas, depois nas melhores faculdades e em seguida conseguem os melhores empregos.

Mas seu poder vem de um incessante esforço de conquista, o que os faz se movimentarem constantemente, lutando pelo sucesso e pela própria sobrevivência. Suas perspectivas se estreitaram, seu horizonte passou a ser de mais curto prazo, suas ações ficaram mais voltadas para os próprios interesses.

Mas o pior é que eles acreditam que seu status é legítimo. Falta a eles um pouco do senso do antigo establishment de que seus privilégios eram um acaso do nascimento. A velha discrição desapareceu. Os CEOs e outros membros da elite de hoje têm remuneração excessiva, disputam vantagens pessoais e vivem focados na própria ascendência. 

O homem que inventou o termo “meritocracia” não considerava isso um elogio. O pensador britânico Michael Young pintou um quadro distópico de uma sociedade na qual a nova elite, tecnocrática, selecionada por meio de exames, tornou-se cada vez mais presunçosa, arrogante e ambiciosa, convencida de que a moderna desigualdade é um reflexo justo do talento e do trabalho duro.

Escrevendo mais tarde sobre o uso elogioso do termo por Tony Blair, Young advertiu que o primeiro-ministro estava fomentando uma atitude profundamente imoral para com os que não foram agraciados pelo sistema, tratando-os como se merecessem seu status mais baixo. 

Donald Trump usa um refrão comum em seus comícios para atacar as elites de hoje e sua arrogância. Ele foca na escolarização dessas pessoas e então diz à multidão: “Eles não são elite. Vocês é que são”. Trump descobriu um veio genuíno de repugnância entre muitos americanos pelo modo como são tratados pelos compatriotas mais bem-sucedidos. Os violentos protestos que vêm ocorrendo na França são igualmente alimentados por pessoas mais pobres, que se sentem ignoradas pelas elites metropolitanas. O Brexit, de 2016, reflete a mesma revolta contra tecnocratas. 

Deixem-me ser claro – não estou propondo o renascimento do establishment anglo-saxão protestante. Estou é perguntando se não podemos aprender algo de suas virtudes. As elites de hoje precisam ser mais recatadas em seus privilégios e lembrar-se de uma noção simples, antiga e universal: seja rico ou pobre, com ou sem talento, instruído ou não, todo ser humano tem o mesmo valor moral. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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