Aliado da junta vence no Egito, diz jornal Militares temem Morsi Escalada da tensão egípcia

Partidários da Irmandade Muçulmana cobram divulgação de resultado e militares alertam contra manifestações que contestem decisões do governo

CAIRO, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h04

Em meio a rumores de que o candidato da junta militar à presidência do Egito, Ahmed Shafiq, seria declarado vencedor das eleições presidenciais neste fim de semana, dezenas de milhares de pessoas tomaram a Praça Tahrir. Ontem, o jornal Al-Ahram, próximo ao governo, publicou que Shafiq obteve 50,7% dos votos.

O candidato Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, não reagiu à notícia e disse que a demora dos generais em anunciar o vencedor da eleição é uma forma de pressionar os islâmicos a aceitar a dissolução do Parlamento e a transferência de parte do poder do presidente aos militares.

A nota do Al-Ahram parece ter sido direcionada à Irmandade, que na segunda-feira declarou a vitória de Morsi. A campanha de Shafiq também garante ter vencido a eleição.

Ainda de acordo com o jornal, no entanto, membros do partido islâmico não descartam a possibilidade de um acordo com os militares. Representantes das duas facções se reuniram ontem no Cairo. Na quarta-feira, a comissão eleitoral, controlada pela junta, informou que não havia prazo para a divulgação do resultado, uma vez que os recursos dos dois partidos ainda estavam sendo analisados. Os generais alertaram os manifestantes de que usarão firmeza extrema contra qualquer pessoa que ameace os "interesses máximos do país". "As Forças Armadas têm prezado o autocontrole em respeito à revolução e para evitar que pessoas exercendo seu direito de opinião sejam feridas", disse um porta-voz da junta. "Todos devem respeitar o princípio da legitimidade e conhecer os riscos de abandoná-lo."

Em referência ao descontentamento com a ordem judicial que determinou o fechamento do Parlamento eleito no começo do ano, a junta fez um alerta. Segundo o porta-voz dos generais, a decisão da Justiça foi emitida em nome do povo. Assim, descumpri-la ou tentar fugir dela seria um crime passível de punição.

No último dia de votação, no domingo, a junta militar emitiu um decreto constitucional interino que lhe outorgou poderes legislativos e algumas das atribuições do Executivo. Na semana passada, os generais tinham concedido à polícia poderes para prender suspeitos sem acusação formal.

Em comunicado à nação, os militares defenderam a necessidade do decreto. "A questão do decreto constitucional era necessária para administrar os assuntos de estado durante esse período crítico para a história do nosso país", diz o texto.

O comunicado pareceu direcionado à Irmandade Muçulmana, cujo Partido Justiça e Liberdade (PJL) controlava o Parlamento. No último dia de votação, no domingo, a junta militar emitiu um decreto constitucional interino que lhe outorgou poderes legislativos e algumas das atribuições do Executivo. Na semana passada, os generais tinham concedido à polícia poderes para prender suspeitos sem acusação formal.

Protestos. Na Praça Tahrir, os manifestantes se reuniram após as preces de sexta-feira para pressionar a junta a revogar o decreto constitucional interino. A maior parte deles era membro da Irmandade Muçulmana.

"Essa é uma contrarrevolução clássica que só pode ser contida pela força dos protestos", disse Safwat Ismail, da Irmandade Muçulmana.

Mahmoud Mohammed, um engenheiro salafista de 31 anos, promete ficar na Praça Tahrir até que os militares deixem o poder. "O povo elegeu o Parlamento e eles o jogaram no lixo", disse. "Precisamos que o Exército entregue o poder. Ninguém está aqui para brigar. Queremos democracia."

"Nem nós nem o povo concordamos com esse decreto", disse Morsi. "Por que precisamos de uma Constituição provisória se vamos escrever uma nova?"

Na terça-feira, rumores sobre a morte do ex-ditador Hosni Mubarak adicionou um grau extra de tensão ao já complexo cenário político egípcio.

Mubarak teve a morte clínica declarada e depois desmentida. O ex-líder sofreu um enfarte e um acidente vascular cerebral (AVC) e foi transferido da Prisão de Torah, onde cumpre pena de prisão perpétua por ter ordenado massacre de civis nos protestos no ano passado, para um hospital militar no Cairo. / AP, REUTERS E NYT

A eleição de Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, é vista com cautela pelos militares e pela sociedade cristã do Egito. Durante a campanha, Morsi, em comícios nos redutos mais conservadores do país, defendeu abertamente a adoção da sharia, o código islâmico, num país em que 10% da população é cristã, e uma fatia expressiva dos muçulmanos é liberal e defende a separação entre política e religião.

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