Juan Karita/AP
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Aliado de Evo vence eleição na Bolívia e cria atalho para volta de ex-presidente

Mesmo sem um resultado oficial, Luis Arce, ex-ministro da Economia gestão Evo, é apontado como presidente eleito por quase todos os rivais na disputa, que reconheceram sua vitória no primeiro turno

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 22h04

LA PAZ - Embora o resultado oficial não tenha saído, projeções colocam como presidente eleito da Bolívia o economista Luis Arce, de 57 anos, aliado do ex-presidente Evo Morales, do partido Movimento ao Socialismo (MAS). Nesta segunda-feira, Arce comemorou a vitória ainda no primeiro turno, dizendo que a Bolívia “recuperou a democracia”. O resultado foi reconhecido pela presidente interina, Jeanine Áñez, e pelo seu principal adversário na disputa, Carlos Mesa.

Em seu primeiro pronunciamento após a eleição, Arce adotou um tom moderado. “Vamos governar para todos os bolivianos. Vamos construir um governo de unidade nacional. Vamos construir a unidade de nosso país”, afirmou o ex-ministro da Economia, ao lado de seu vice-presidente, David Choquehuanca, que era chanceler boliviano. “Vamos reconduzir nosso processo de mudança, sem ódio, aprendendo e superando nossos erros.”

Segundo pesquisa da Cesmori, o mais importante instituto da Bolívia, Arce obteve 52,4% dos votos. Mesa, ex-presidente do centrista Comunidade Cidadã (CC), ficou em segundo, com 31,5%. Em terceiro, com 19%, ficou o líder de extrema direita Luis Fernando Camacho – o único que não reconheceu o resultado e disse que só se manifestaria após o fim da apuração.

Se os resultados se confirmarem, Arce terá obtido 5 pontos porcentuais a mais do que Evo na eleição de 2019, que acabou anulada. Na época, o então presidente, que concorria a um quarto mandato, chegou a ser declarado vencedor com 47% dos votos, à frente de Mesa, que teve 36,5%. 

A eleição de 2019 foi marcada por uma confusão estabelecida após a interrupção da apuração. Antes, os resultados apontavam para o segundo turno entre Evo e Mesa. Depois que o sistema voltou a funcionar, o presidente estava eleito. A desconfiança provocou protestos de rua que acabaram levando à renúncia do presidente, em meio a um motim da polícia e depois de um ultimato dos militares. Evo fugiu para o México e depois se exilou na Argentina.

Hoje, Evo comemorou a vitória do aliado. Segundo ele, o resultado mostra que houve um “golpe de Estado” em 2019. “A vitória eleitoral contundente demonstra que, em 2019, não houve fraude, mas sim um golpe de Estado”, escreveu o ex-presidente em uma rede social.

Segundo Evo, seu retorno à Bolívia é apenas uma questão de tempo. “Mais cedo ou mais tarde, eu vou voltar. Isto não está em discussão. É apenas uma questão de tempo”, afirmou. “Mais uma vez, lideraremos o crescimento econômico da região, porque o MAS é o único partido com um programa e uma visão de país que sempre integrou campo e cidade, oriente e ocidente.”

Hoje, Mesa disse que as projeções são “muito contundentes e muito claras” e declarou que lhe cabe apenas “reconhecer que há um vencedor na eleição”. “É nossa vez de liderar a oposição”, tuitou o ex-presidente. No domingo, logo após a divulgação das projeções, a vitória de Arce já havia sido reconhecida pela presidente interina, uma feroz opositora de Evo. “Arce e Choquehuanca venceram a eleição. Felicito aos vencedores e peço que governem pensando na Bolívia e na democracia”, afirmou Jeanine.

A vitória de Arce também mereceu elogios de alguns países aliados do governo do MAS, como México, Argentina e Cuba. No entanto, até antigos desafetos de Evo, como o governo americano, enviaram felicitações. “Parabenizamos o presidente eleito da Bolívia, Luis Arce e o vice-presidente, David Choquehuanca”, disse no Twitter Michael Kozak, chefe do setor de América Latina no Departamento de Estado dos EUA. “Estamos ansiosos para trabalhar com o governo recém-eleito para promover a prosperidade econômica, os direitos humanos e liberdade de imprensa.”

Silêncio no Planalto

Até o início da noite, o governo brasileiro não havia se pronunciado sobre a vitória de Arce e a Embaixada do Brasil em La Paz aguardava instruções sobre o que fazer. Pessoas próximas ao presidente eleito disseram que não houve sequer tentativa de contato da parte do Palácio do Planalto.

Fontes do Itamaraty dizem que o chanceler Ernesto Araújo foi surpreendido com a vitória do MAS, embora tenha sido informado de que a possibilidade era real. Diplomatas que acompanham a relação do Brasil com a Bolívia apostam em uma posição pragmática em razão dos enormes interesses econômicos e também do perfil moderado do eleito. / AFP, COLABOROU RICARDO GALHARDO

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