Johanna Alarcon/REUTERS
Johanna Alarcon/REUTERS

Aliado de Rafael Correa vai para o segundo turno no Equador, mas adversário permanece indefinido

Andrés Arauz confirma favoritismo, enquanto líder indígena e ex-banqueiro disputam voto a voto para definir quem será seu oponente

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 09h00
Atualizado 08 de fevereiro de 2021 | 20h34

QUITO - Andrés Arauz, jovem economista de esquerda aliado do ex-presidente Rafael Correa, confirmou o favoritismo e  foi o candidato mais votado no primeiro turno da eleição presidencial do Equador no domingo, 7. Seu adversário, no entanto, permanece incerto até esta segunda-feira, 8, e deve ser definido nos últimos votos a serem contados.

Com 95% das urnas apuradas, Arauz tinha até o final da tarde de hoje 33,37% dos votos (2.501.933), enquanto o líder indígena Yaku Pérez, da centro-esquerda verde, tem 20,72% (1.553.768) e Guillermo Lasso, ex-banqueiro da centro-direita, tem 20,46% (1.532.126). Lasso e Pérez já trocaram de posição na vice-liderança mais de uma vez, e a diferença entre eles é de menos de cinco mil votos.

Até aqui considerado favorito para vencer, Arauz foi ministro de Coordenação de Conhecimento e Talento Humano de Rafael Correa, que governou de 2007 a 2017. Também ocupou cargos no Banco Central e integrou a equipe econômica daquele governo. Seu projeto, alinhado com o pensamento do ex-presidente, prevê um Estado grande e presente, renegociação da dívida pública e aproximação internacional com a China.

O economista diz que Correa será seu assessor externo e nega acusações de opositores sobre planos para acabar com a dolarização da economia, que foi instituída nos anos 1990 e mantida por Correa.

Em um discurso após a pesquisa boca de urna, que o apontava com até 36% dos votos, ele disse acreditar que a margem final seria "mais ampla" e que confiava em vitória ainda no primeiro turno, por causa do chamado "voto escondido" e daqueles depositados no exterior.

Para um candidato vencer no primeiro turno no Equador, precisa ter mais de 50% dos votos ou 40% dos votos e mais de 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado. “A amplitude da vitória nos dá muita tranquilidade”, disse.

A apuração, contudo, apontou necessidade de segundo turno. Lasso, candidato do movimento Creo e do Partido Social Cristão, representa a opção conservadora e de centro-direita. Empresário, banqueiro e político, disputa pela terceira vez a Presidência do país, e geralmente apareceu em segundo nas pesquisas, inclusive nas de boca de urna. 

Foi derrotado em 2013 por Correa, e em 2017 passou para o segundo turno, perdendo por 48,8% contra 51,6% obtidos por Lenín  Moreno - então candidato de Correa. Promove uma agenda neoliberal de economia aberta, privatizações e redução do Estado. “O que posso dizer é que haverá um segundo turno e nós estaremos no segundo turno”, disse Lasso após a votação em Guayaquil.

Durante a campanha, ele disse que, se não avançasse, apoiaria Pérez contra Arauz. O líder indígena não declarou se retribuiria o apoio se fosse ele a ficar de fora, mas, para alguns analistas, tem altas chances de fazê-lo. Entende-se que suas chances de vitória contra Arauz são mais altas do que as de Lasso.

Candidato do movimento indígena Pachakutik, Pérez foi presidente da confederação Ecuarunar e governador da Província de Azuay. Declara-se opositor de Correa e do atual presidente, Lenín Moreno, e se define como representante de uma esquerda “ecológica e comunitária”. 

Pérez é casado com a jornalista franco-brasileira Manuela Picqdetida em 2015 durante violentos protestos o governo do então presidente Rafael Correa. Na época, sua prisão acendeu ainda mais os ânimos dos indígenas que protestavam contra o governo, com marchas periódicas em Quito e bloqueios de estradas no sul do país. 

Na cidade andina de Cuenca, no Sul, onde Pérez votou, foi realizada uma consulta popular paralela para decidir a liberação ou não da exploração de metais em nível industrial nas proximidades de cinco rios. Ainda não foi divulgado o resultado desta consulta. “Temos a oportunidade de enterrar a corrupção do correísmo e do morenismo expressa no senhor Arauz e no senhor Lasso”, disse Pérez, em um vídeo postado no Twitter.

Mais tarde, ele pôs em dúvida as pesquisas de boca de urna que davam a segunda posição a Lasso. “As pesquisas de boca de urna operam em função dos interesses do foragido (Correa) e do banqueiro. Somos a segunda força política do país e depois do segundo turno seremos a primeira”,  disse, em uma referência ao exílio do ex-presidente na Bélgica e sua impossibilidade de voltar ao país, onde foi condenado a 8 anos de prisão em um processo por corrupção.

Nesta segunda-feira, ele disse que era vítima de uma trama que envolvia Correa, Lasso e o prefeito de Guayaquil, Jaime Nebot, para tirá-lo de um segundo turno.  “São 15 pontos que foram retirados do nosso voto e transferidos para outros candidatos, a única forma de mostrar isso é abrir as urnas e votar por contagem de votos nas províncias de Guayas, Pichincha e Manabí”, disse Pérez ao jornal El Universo. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) disse que não há até agora irregularidades na apuração.

Participação 

A participação eleitoral ocorreu, segundo o CNE, em “termos normais”, apesar das restrições causadas pela covid-19. A participação foi de 76%, apenas um pouco abaixo dos 80% da última eleição presidencial.

Filas de eleitores, que em alguns casos se estendiam por vários quarteirões, obrigaram as autoridades eleitorais a pedirem o relaxamento das restrições impostas pela pandemia à entrada em zonas de votação, vigiadas por militares e policiais.

O segundo turno está marcado para 11 de abril. Cerca de 13  milhões de eleitores, no país de 17 milhões de habitantes, estão aptos a designar o sucessor do impopular Lenín Moreno,  que não buscou a reeleição e cujo mandato termina em 24 de maio.

Uma vitória de Arauz se somaria ao retorno de políticas da esquerda nacionalista na América Latina, como ocorreu na Argentina e na Bolívia, e representaria um desafio para o governo dos Estados Unidos em seu duelo com a China por influência no continente. O Equador sofreu um surto brutal de coronavírus no ano passado, que deixou corpos acumulados pelas ruas de sua maior cidade, Guayaquil.

Além disso, medidas de isolamento atingiram ainda mais a economia, que já sofria com os baixos preços do petróleo, responsável por 44% do PIB. Moreno  promoveu uma agenda pró-mercado na esperança de ressuscitar uma economia de crescimento lento e altamente endividada, mas que foi fortemente rechaçada pela população. Em 2019, houve 10 dias de protestos violentos contra a retirada de subsídios aos combustíveis.

As eleições também decidirão os 137 membros da Assembleia Nacional, mas, devido à fragmentação das forças políticas, não se espera que nenhum partido consiga maioria. “Quem vencer terá um mandato fraco e precisará buscar formar uma coalizão”, disse à agência France Presse o cientista político Estebán Nichols, da Universidade Andina Simón Bolívar.

Correa, que mora na Bélgica desde 2017, tentou ser o candidato a vice de Arauz, mas foi impedido pela Justiça Eleitoral por enfrentar a ordem de prisão depois de ser condenado em 2020. 

Dos 16 candidatos, a única mulher foi Ximena Peña,  que representa o enfraquecido partido no poder, o Aliança País, antiga formação de Correa./ REUTERS e AFP

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