Aliado dos Kirchners é acusado de corrupção

Justiça argentina relaciona ex-secretário de Transportes a operações de superfaturamento, pedidos de propina e criação de sociedades fantasma

Ariel Palacios CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

O ex-secretário de Transportes Ricardo Jaime, assessor da presidente Cristina Kirchner e do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), está na mira da Justiça argentina, que encontrou 26 mil e-mails e documentos que o relacionam a operações de superfaturamento, pedidos de propinas, criação de sociedades fantasma e favores empresariais irregulares especialmente nas áreas aeronáutica e ferroviária.

Nos e-mails e documentos de Jaime aparecem números de contas bancárias, nomes de integrantes do governo, sindicalistas e empresários envolvidos nessas operações irregulares.

O material foi encontrado em 11 computadores no escritório de seu sócio, Manuel Vázquez, tradicional lobista do peronismo. Nos e-mails aparecem trechos como "milhões para a gangue", "presentes para nós" e "estariam sobrando uns 700 mil que temos que avaliar como a gente usa melhor".

Homem de confiança dos Kirchners, aos quais acompanhava desde 1991 (quando Néstor era governador da província de Santa Cruz), Jaime chegou a secretário federal de Transportes em 2003. Ali, durante meia década, controlou US$ 1 bilhão em subsídios anuais ao setor. Saiu do cargo em julho de 2009, após a derrota do governo nas eleições parlamentares. Entre os integrantes do gabinete, ele era o mais associado a casos de corrupção.

Segundo os documentos, empresários espanhóis do setor de trens reclamavam dos pedidos de propinas de Jaime, que encomendou vagões às empresas Renfe e Feve. No entanto, 70% do total vagões enviados à Argentina jamais foram usados, por estarem em péssimo estado.

Os e-mails indicam que nesta operação Jaime e Vázquez haviam separado uma parte do pagamento para "la banda" (a gangue), que ficaria com 3,5 milhões (10,8% do total do negócio). O ex-secretário também é acusado de receber um avião de presente de empresários para seu transporte privado.

A Oposição acusa os Kirchners de graves irregularidades no contrato que o governo assinou com a empresa francesa Alstom para a construção do trem-bala argentino, obra que estava na órbita de Ricardo Jaime. O custo da obra, ao contrário dos quase US$ 4 bilhões oficialmente anunciados pelo governo Cristina, seria na realidade de US$ 13,49 bilhões.

Brasil. No início do ano, autoridades brasileiras localizaram em Florianópolis o iate "Capricórnio", que seria uma das provas do enriquecimento ilícito de Jaime. Ele teria pago - por intermédio de testas-de-ferro - US$ 1 milhão pelo iate, um modelo Altamar 64 com matrícula DL2 153 AC. Os partidos da oposição afirmam que o ex-secretário possui diversos imóveis no Brasil, onde reside sua filha, Romina Jaime, gerente de uma pousada em Santa Catarina.

PERFIL

Ricardo Jaime,EX-SECRETÁRIO DE TRANSPORTES E ASSESSOR DOS KIRCHNERS

Um histórico de escândalos

Em 2005, Ricardo Jaime foi o principal suspeito de um escândalo de contrabando de cocaína em malas transportadas pela companhia aérea privada Southern Winds, subsidiada pelo governo. Em 2008, foi o responsável pela polêmica reestatização da Aerolíneas Argentinas. Apesar do enriquecimento aparente, sua declaração de bens indicava no ano passado que ele possuía apenas US$ 20 mil.

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