AFP PHOTO / Aaref WATAD
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Aliados de Assad agora reclamam de governo

Mesmo com a guerra perdendo força, oito anos após seu início, os padrões de vida na Síria continuam a se deteriorar, elevando a porcentagem de pobres

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 00h40

BEIRUTE - Sírios que permaneceram leais ao presidente Bashar Assad durante os oito últimos anos de guerra estão cada vez mais insatisfeitos com seu governo, já que os padrões de vida na Síria continuam a se deteriorar mesmo com o conflito gradualmente perdendo a força.

As condições são desesperadoras para a maioria dos 19 milhões de sírios que vivem na parte devastada pela guerra ou no um terço do país que continua fora do controle do governo. Cidades e aldeias inteiras foram despovoadas e destruídas. Estima-se que 89% da população esteja vivendo na pobreza, dependendo de alimentos da ajuda internacional, segundo a ONU.

Mas, pela primeira vez, aqueles que vivem nas áreas pró-governo e foram poupados do pior da violência estão enfrentando as mais severas privações, até mesmo na capital, Damasco. Moradores locais dizem que a vida se tornou mais difícil nos últimos meses do que em qualquer momento nos oito anos de guerra, trazendo a percepção de que não haverá uma rápida recuperação do imenso dano infligido à economia, à sociedade em geral e à posição social da Síria perante a comunidade internacional.

Até que o último dos subúrbios rebeldes de Damasco fosse reconquistado no ano passado, bombas disparadas de territórios controlados por rebeldes explodiam com regularidade nas ruas da capital, mantendo um clima de medo e incerteza.

A conquista do subúrbio de Ghouta Oriental, em 2018, acabou com os mísseis, mas não trouxe o alívio que os moradores esperavam, disse um escritor de Damasco, que falou sob condição de anonimato. “Isso é o pior que já conhecemos. As pessoas mal conseguem sobreviver e a porcentagem de pobres aumenta o tempo todo.”

A aguda escassez de combustível, gás de cozinha e eletricidade deixou os cidadãos tremendo na escuridão durante um inverno excepcionalmente frio. A moeda síria, que havia caído e se estabilizado depois do início da guerra, está recuando novamente, elevando os preços.

Milhares de homens que lutaram nas linhas de frente estão regressando sem esperança de encontrar emprego. A economia do tempo de guerra alimentou a corrupção em uma escala sem precedentes, somando-se ao desafio diário das filas que duram horas para garantir as necessidades básicas.

“O que está sendo apresentado como uma grande vitória militar não se traduziu na melhoria da qualidade de vida esperada”, disse Danny Makki, analista e jornalista britânico-sírio que mora em Damasco. “Você tem de 3% a 4% das pessoas com a vasta maioria da riqueza e, para o restante, a vida é apenas uma luta.”

A infelicidade é refletida em uma torrente sem precedentes de reclamações nas mídias sociais de partidários de Assad, incluindo algumas das celebridades e personalidades da TV que no passado usaram sua presença para obter apoio para seu regime. / W. POST, TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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