AP Photo/Rodrigo Abd
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Aliados de Maduro consideram planos de fuga como alternativas à crise na Venezuela

Entre os países que poderiam dar refúgio ao líder chavista e ao membros do alto escalão de seu governo estão Cuba, Rússia e Turquia; abrigá-los, no entanto, pode significar entrar em rota de colisão com os Estados Unidos

Redação, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2019 | 14h40

WASHINGTON - Planos de fuga para que Nicolás Maduro saia da Venezuela estão sendo considerados por aliados do presidente, afirmaram à Bloomberg quatro pessoas familiarizadas com a discussão. Publicamente, o chavista insiste que não abandonará o cargo e acusa os Estados Unidos de liderarem um golpe de Estado contra o seu governo.

O líder bolivariano se manteve no cargo por anos em meio a protestos, a uma economia em colapso e a sanções internacionais graças ao forte apoio dos militares e de uma oposição fragmentada. Mas a tensão nunca foi maior. O nó financeiro está sendo apertado globalmente, muitos vizinhos e nações ocidentais estão exigindo que ele convoque eleições ou renuncie. Além disso, a oposição se reanimou sob a força de Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional que em janeiro se declarou presidente interino.

A questão é: para onde ele iria (ou poderia ir)?

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Protestos foram convocados pela oposição e receberam apoio dos Estados Unidos.

Qualquer potencial abrigo traz riscos, tanto para Maduro quanto para os países envolvidos. Apesar de os EUA defenderem que ele deixe o país, Washington pode não ficar feliz com a nação que concordar em dar refúgio. E Maduro iria querer se sentir seguro e fora do alcance da lei venezuelana e internacional.

Alguns destinos foram discutidos: Cuba, Rússia e Turquia. Em Cuba, o governo comunista de Miguel Díaz-Canel é ideologicamente um aliado da República Bolivariana de Maduro.

Discussões também foram feitas sobre a possibilidade de ele ir ao México, disseram duas pessoas, pedindo para não serem identificadas devido ao teor sensível do assunto. O presidente Andrés Manuel López Obrador é um dos poucos líderes latinos que não reconheceu Guaidó. Maduro foi à posse de Obrador em dezembro.

Em entrevista na sexta-feira passada, Obrador reiterou que o seu governo é guiado pela proibição constitucional de intervir nos interesses de outras nações, mas que estaria aberto a mediar um diálogo de ambos os lados na Venezuela.

 

Plano B

O assunto veio à tona porque a mulher de Maduro, Cilia Flores (que tem dois sobrinhos condenados a 18 anos de prisão nos Estados Unidos por tráfico de cocaína), está colocando pressão sobre o marido para o casal ter um plano B, afirmou outra pessoa. O Ministério da Informação da Venezuela não respondeu aos pedidos de comentário.

“Eu acho que é melhor para a transição da democracia na Venezuela que ele (Maduro) esteja fora do país”, afirmou a repórteres na semana passada Elliott Abrams, representante especial da Venezuela no Departamento de Estado dos Estados Unidos. “E há um número de países que eu acho que estão dispostos a aceitá-lo”, completou, citando “amigos em lugares como Cuba e Rússia”.

Abrams disse que esses países entraram em contato "privadamente e disseram que estariam dispostos a levar membros do atual regime ilegítimo caso ajude a transição”. O americano se recusou a nomear os envolvidos.

O destino de Maduro, de sua família e dos membros do alto escalão de seu governo é essencial para qualquer transição de poder na Venezuela, país-membro da Opep cuja população está sofrendo de escassez de comida e de remédios. Um encontro de países europeus e latino-americanos, que aconteceu em Montevidéu na semana passada, concordou em trabalhar por um processo político pacífico que leve a novas eleições presidenciais.

Cuba de volta ao radar

Se Maduro ou algum parente se refugiar em Cuba, isso colocaria Havana de volta ao radar, afirmou uma pessoa familiarizada com o assunto, citando potencial para evidências conectando autoridades a drogas ou tráfico de armas na região. Isso, segundo a fonte, permitiria que Washington lançasse um pacote de medidas extraordinárias tendo o governo cubano como alvo por encorajar o terrorismo na região.

Possível ajuda da Rússia e Turquia

A Rússia, tradicional aliada de Caracas, está mostrando sinais de dúvida sobre o poder de Maduro para se ater ao poder. Moscou não gosta do chavista, mas tem pouca escolha sobre o assunto, segundo pessoas com conhecimento do assunto que pediram para falar sob condição de anonimato. O Kremlin não encoraja que ele fuja a menos que haja uma alternativa clara, que, para Moscou, não é Guaidó, disse essa fonte.

Se Maduro escolher a Rússia, Vladimir Putin daria o refúgio, afirmou Andrei Kortunov, chefe do Conselho Internacional de Relações da Rússia, um pesquisador da organização criada pelo Kremlin. “Não está em nossas regras desistir dos nossos - e ele ainda é um dos nossos”, disse.

A Rússia, no entanto, acredita que ele pode sobreviver à crise. “Acho que Maduro tenha esconderijos perto da Rússia”, afirmou Kortunov. “Mas ainda é prematuro. Até agora, o regime mostrou resiliência.” 

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, declarou a Maduro no mês passado o seu apoio, chamando-o de “meu irmão!”. Destino para toneladas de ouro venezuelano, a Turquia ofereceu abrigar o sucessor de Hugo Chávez, embora apenas em um último recurso, contou uma fonte. Qualquer decisão seria tomada por Erdogan diretamente e, no momento, a prioridade é apoiá-lo em seu próprio país, afirmou uma autoridade turca do alto escalão.

O Vaticano pode ter um papel a desempenhar na possível saída de Maduro, disse outra pessoa. Guaidó reiterou os pedidos, em entrevista à TV italiana Sky TG24, para que o Papa Francisco atue como mediador no conflito venezuelano. / BLOOMBERG

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