Aliados preparam recepção a Fujimori

Filha convoca partidários para que se concentrem no aeroporto de Lima para boas-vindas e ato de desagravo

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2022 | 00h00

A deputada peruana e filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), Keiko, convocou ontem os partidários de seu pai a dirigirem-se ao aeroporto de Lima para dar as "boas-vindas" ao líder, extraditado pelo Chile. Keiko conclamou os fujimoristas a "demonstrar que ele é inocente" dos crimes de que é acusado.O analista político da Rádio CPN Enrique Castillo afirma que a volta do ex-presidente ao país pode causar instabilidade política e seus partidários se manterão mobilizados para que ele não seja condenado. "A bancada fujimorista no Congresso vai defender a idéia de que a Justiça está contra um homem que lutou contra o terrorismo no país", afirmou Castillo ao Estado, por telefone, em referência à atuação de Fujimori no combate à guerrilha maoísta Sendero Luminoso.O fujimorismo sofreu um duro golpe no Peru depois que o ex-presidente fugiu para o Japão em 2000, em meio a um escândalo de corrupção e chantagem que teve como pivô Vladimiro Montesinos - considerado "eminência parda" do governo.Castillo observa, porém, que o movimento vem-se reagrupando desde a chegada de Fujimori ao Chile, em 2005. "Não descarto a possibilidade de Fujimori voltar à política porque ele tem grande apoio popular." Castillo crê que o ex-presidente pode usar sua popularidade para ajudar na carreira política de Keiko - deputada mais votada na eleição do ano passado. Em entrevista a uma emissora de TV chilena, Fujimori afirmou ontem que a próxima eleição presidencial no Peru contará com "um Fujimori" entre os candidatos. Alguns especialistas estimam que o presidente Alan García torcia para que Fujimori não fosse extraditado, por causa do temor de que ele se converta num líder opositor popular.A decisão da Justiça do Chile de extraditar Fujimori por 7 das 13 acusações feitas pelo governo peruano foi recebida com surpresa. "A expectativa no país era a de que Fujimori fosse extraditado por, no máximo, três acusações", afirmou Castillo. A Justiça peruana só poderá julgar o ex-presidente pelas acusações aceitas no Chile.Castillo alerta que dificilmente o ex-presidente será condenado nos dois delitos por violação de direitos humanos. "Nas acusações de violação de direitos humanos, as provas do envolvimento de Fujimori são frágeis."As acusações referem-se às matanças de Barrios Altos, em 1991, e de La Cantuta, em 1992 - consideradas os piores crimes cometidos nos últimos 30 anos no Peru contra os direitos humanos.As duas chacinas foram executadas pelo Grupo Colina - formado por militares que respondiam diretamente às ordens de Montesinos durante os anos mais obscuros do combate ao Sendero Luminoso. No massacre de Barrios Altos morreram 15 pessoas que participavam de uma festa. No da Universidade La Cantuta, as vítimas foram um professor e nove alunos.A Justiça peruana acusou Fujimori de ter responsabilidade nos dois episódios como co-autor dos delitos de homicídio qualificado, tortura e desaparecimento forçado de pessoas. A pena mínima para esses delitos é de 15 anos e a máxima, de 25. De acordo com a Associação Pró-Direitos Humanos, as matanças são provas de que Fujimori estabeleceu "uma política encoberta de violação sistemática dos direitos humanos" como parte de sua estratégia de luta contra a subversão.O combate ao Sendero Luminoso intensificou-se após o "autogolpe" de Fujimori, em 1992. Com o apoio do Exército, ele dissolveu o Legislativo e o Judiciário. Ao mesmo tempo, Fujimori investiu-se de amplos poderes para combater a hiperinflação de quase 7.500% ao ano. A derrota da guerrilha e a relativa prosperidade econômica garantiram ao líder a popularidade que ainda mantém.

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