Aliança com Chávez selou destino de líder deposto

Presidente caiu por seguir cartilha chavista e tentar alterar a Constituição

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2009 | 00h00

Nos primeiros dias de junho, semanas antes do golpe, líderes de todos os países da América viajaram para Honduras para o encontro da Organização dos Estados Americanos (OEA) em San Pedro Sula. Os EUA foram representados pela secretária de Estado, Hillary Clinton, que chegou a se reunir com Manuel Zelaya, ainda no poder.O tema discutido na reunião foi o fim da suspensão de Cuba da OEA. Nenhum governante, analista ou veículo de imprensa antecipou a crise que estava por vir. No entanto, os hondurenhos já debatiam, havia alguns meses, o conflito envolvendo Zelaya e seus planos de realizar uma consulta popular sobre uma reforma constitucional.O problema, porém, não começou com a eleição de Zelaya, há quatro anos. Candidato do Partido Liberal, a impressão era a de que ele seria apenas mais um presidente hondurenho. Como seus antecessores, ficaria no cargo quatro anos e, depois, seria obrigado, pela Constituição, a não mais exercer cargos eletivos. Aprovada em 1982, a Carta visava justamente a impedir que governantes tentassem se manter indefinidamente no poder.Zelaya possuía uma agenda de centro durante a campanha. Não foi eleito com um discurso chavista como Rafael Correa, no Equador, Daniel Ortega, na Nicarágua, e Evo Morales, na Bolívia. Não tem um histórico de acadêmico de esquerda, como o equatoriano, de guerrilheiro, como o nicaraguense, ou de líder indígena, como o boliviano. Era, nas palavras de Hugo Chávez, "o comandante vaqueiro", um proprietário de terras, da pequena elite hondurenha.Depois de tomar posse, Zelaya se distanciou de seu partido. Rompeu com seu vice, Elvin Santos. Brigou com o então presidente do Congresso, Roberto Micheletti. E adotou políticas consideradas chavistas. No início deste ano, aumentou o salário mínimo em 60%.Essas atitudes, segundo relataram analistas e políticos hondurenhos ao Estado, irritaram a elite empresarial hondurenha. A imprensa começou a atacar Zelaya, que ganhou o apoio de sindicatos e de grupos de esquerda. Os EUA não prestavam muita atenção nele. Ao mesmo tempo, Chávez viu no presidente hondurenho um aliado e começou a financiá-lo com petróleo barato. Os dois passaram a se reunir com frequência e o venezuelano fez discursos agressivos em Tegucigalpa, alarmando a elite local, que passou a temer a radicalização de Zelaya.Em uma sociedade conservadora, sem movimentos esquerdistas radicais como nos países vizinhos, o temor de um governo chavista cresceu ainda mais com a proposta da consulta sobre a reforma da Constituição. A Suprema Corte não aceitou a medida. As Forças Armadas disseram que não garantiriam a segurança do processo eleitoral. Zelaya exonerou o chefe do Exército, mas a Justiça afirmou que ele deveria ser recolocado no cargo. Os juízes hondurenhos e o Congresso advertiram Zelaya de que ele poderia ser deposto se prosseguisse nessa linha. Segundo o artigo 239 da Constituição hondurenha, "o cidadão que tenha desempenhado a titularidade do poder Executivo não poderá ser eleito presidente ou vice-presidente da República. Quem desrespeitar esta disposição ou propuser sua reforma, assim como aqueles que a apoiem direta ou indiretamente, cessarão de imediato as funções de seus respectivos cargo e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de funções públicas."De acordo com a Suprema Corte e o Congresso, isso era exatamente o que queria Zelaya, que nega ter o objetivo de se perpetuar no cargo. Contudo, ele não conseguiu convencer seus adversários, que nesse momento incluíam as Forças Armadas, a Suprema Corte e os dois maiores partidos no Congresso. Na madrugada de 28 de junho, cumprindo uma ordem judicial que citava o artigo 239, Zelaya foi removido de pijamas da residência presidencial, colocado em um avião e enviado para Costa Rica. Nenhum general assumiu o poder. Como o vice-presidente havia renunciado, assumiu o cargo Micheletti, presidente do Congresso.Nos EUA, o Departamento de Estado foi pego de surpresa. Hillary não havia falado nada publicamente depois de sua visita em junho. A imagem que ficou em Washington foi a de uma república de bananas, como a Guatemala de Jacobo Arbenz, derrubado em golpe patrocinado pelos americanos na década de 1950. Desta vez, segundo analistas americanos, Obama tentou mostrar uma imagem diferente e condenou o golpe, se posicionando ao lado de Zelaya, considerado um aliado do bloco anti-EUA. Já o opositores do presidente deposto foram classificados como golpistas, apesar de simpatizarem com os americanos. E Honduras foi suspensa da OEA, um mês depois da reunião da organização em San Pedro Sula.

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