Asmaa Waguih/Reuters
Asmaa Waguih/Reuters

Aliança dá favoritismo a ex-membro da Irmandade

Fotouh, que conseguiu unir setores da esquerda laica e os radicais salafistas, posa como pós-islâmico, mas defende a sharia como marco legal do Egito

Roberto Simon, Enviado Especial, Cairo,

18 Maio 2012 | 20h41

CAIRO - Dezenas de milhares de pessoas com camisetas e bandeiras laranjas ocuparam nesta sexta-feira, 18, a pequena Ilha de Zamalek, região do Cairo onde o Rio Nilo se divide em dois, para ver um dos últimos comícios de Abdel Moneim Abou Fotouh.

Candidato às eleições presidenciais de terça e quarta-feira, Fotouh costurou uma aliança improvável: recebeu apoio tanto de setores da esquerda laica quanto dos salafistas, os ultrarradicais islâmicos. Essa mistura fez dele o favorito na disputa entre os veteranos da Praça Tahrir.

A visão da multidão laranja andando pelas ruas causava estranheza entre moradores da capital egípcia. "Nunca tinha visto um comício assim organizado, com cartazes e alto-falantes, que não fosse do PND", disse ao Estado o segurança de rua Heni Nasr, de 34 anos, referindo-se ao extinto Partido Nacional Democrático, do ex-ditador Hosni Mubarak. Até fevereiro de 2011, quando o antigo regime ruiu, o PND reunia multidões para demonstrar sua legitimidade e caráter popular. Hoje, o prédio do partido, na Praça Tahrir, está queimado e vazio.

Nasr conta que viveu os dias de luta na praça contra as forças do ditador. "Cheguei a ficar ferido na perna", completa. Mas surpreende ao anunciar sua escolha de candidato: Amr Moussa, o homem que foi ministro de Mubarak por mais de dez anos. O vigia argumenta que Fotouh é um político islâmico, formado nos quadros da Irmandade Muçulmana, com a qual rompeu "apenas" para se candidatar. "O pior que pode acontecer é termos um presidente radical islâmico", afirma. Questionado sobre a contradição de votar no ex-ministro do ditador que ele lutou para derrubar (e lhe feriu a perna), ele rebate: "Moussa discordava de Mubarak e sempre foi contra Israel. Além do mais, ele sabe que, se sair da linha, terá de lidar com a Praça Tahrir".

Os sinais emitidos por Fotouh são de fato contraditórios. Setores laicos que o apoiam afirmam que ele é "pós-islâmico", alguém capaz de unir grupos tão distintos quanto os que depuseram Mubarak. Mas, no único debate na TV, entre ele e Moussa, Fotouh repetiu várias vezes que a sharia (lei corânica) deve ser o marco legal do novo Egito e prometeu um "Estado democrático com a sharia acima de tudo".

Ontem, na manifestação em Zamalek, a esmagadora maioria das mulheres usava o véu que esconde os cabelos. Mas não havia partidárias de Fotouh com o niqab – que deixa apenas os olhos de fora –, tampouco militantes dos ultrarradicais salafistas, facilmente identificáveis pelas barbas espessas e as túnicas longas.

O temor de setores laicos do Egito com os grupos islâmicos cresceu desde o fim do ano passado, quando as eleições legislativas deram mais de 70% do Parlamento aos religiosos e ultrarreligiosos. Mas pesquisas indicam que a popularidade desses partidos está declinando, justamente porque eles passaram a ter as responsabilidades que o poder político traz. Uma sondagem divulgada esta semana pelo Instituto Gallup mostra que, em fevereiro, 63% dos egípcios diziam "apoiar" a irmandade. Em abril, o número caiu para 42%. No mesmo período, os salafistas foram de 37% para 25%.

 

Mais conteúdo sobre:
Eleições no Egitocampanha

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.