Aliança do Norte já articula governo de transição

A decisão do presidente George W. Bush de atrasar o ataque contra o regime dos talebans em Cabul na expectativa de que este possa entrar num processo de decomposição está permitindo à opositora Aliança do Norte se posicionar como solução alternativa de governo, mas as dificuldades são numerosas.Os chefes de guerra da aliança só controlam atualmente entre 5% e 10% do território do país, dispõem de 15 mil homens armados, mas sua coesão, mesmo com todos defendendo um Islã moderado, não chega a ser exemplar.Abdullah Abdullah, antigo porta-voz da aliança no exterior, tem multiplicado seus contatos com americanos, representantes da União Européia, da ONU e com o rei Zahir Shah, no exílio em Roma.Apesar da idade, 86 anos, o rei, aparentemente uma figura simbólica, poderá desempenhar um papel importante num futuro regime de transição.Segundo Abdullah, hoje todos os grupos de oposição estão unidos e contam com a ajuda dos países estrangeiros. Eles se declaram favoráveis à instauração de um regime islâmico moderado e democrático, prometendo também respeitar os direitos dos homens e, principalmente das mulheres, fortemente discriminadas pelos talebans fundamentalistas.Os dirigentes oposicionistas no Afeganistão trabalham sobre uma proposta de governo de transição, no qual seriam representados "todos os que defendem esses valores".Um gabinete provisório deverá ser aprovado por uma assembléia dos chefes de tribos e será encarregado de organizar eleições rapidamente.Por mais que a Aliança do Norte possa ser beneficiada com a eventual agonia do regime taleban, todos no grupo estão conscientes de sua fragilidade e limitações, principalmente após a recente morte do carismático comandante Massud.Por isso, seus porta vozes explicam que não serão eles que estabelecerão o novo regime, embora devam constituir um fator importante do futuro sistema, no qual os que pensam diversamente terão direito à palavra.O mais importante é abrir esse diálogo, o que parece estar acontecendo com a multiplicação de contatos políticos no país e no exterior, mesmo porque as nações industrializados ocidentais terão que apoiar economicamente o projeto.O governo de transição, se tudo der certo, vai receber um país fraturado socialmente, dividido entre regiões, etnias e zonas de guerra e vivendo uma profunda crise alimentar e sanitária - portanto, fortemente dependente de ajuda externa maciça.Por maior que possa ser a impopularidade atual dos talebans, ninguém pode garantir que a população do Afeganistão esteja disposta a confiar sua sorte a uma frente política tão heterogênea, que poderá implodir rapidamente.O próprio representante especial das Nações Unidas para o Afeganistão, Francesco Vendrell, admitiu numa entrevista em Islamabad que o movimento integrista dos talebans poderá desempenhar um papel num governo de transição.Mesmo entre os comandantes da Aliança do Norte a situação não é simples. O general Rachid Dostan, por exemplo, já mudou de campo várias vezes durante a guerra. Pelo menos seis comandantes regionais controlam seus territórios e estabelecem suas próprias leis.

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