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Aliança Rússia-França

Vladimir Putin é um homem rápido. Na tarde de terça-feira, François Hollande, horrorizado com os massacres jihadistas de Paris, anunciou que mudou totalmente sua diplomacia e aderiria à coalizão contra o Estado Islâmico que a Rússia vinha exigindo havia meses em vão. Passadas algumas horas, fomos informados de que Putin “aproveitara da oportunidade”.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 05h50

Na mesma noite, o líder russo deu a seus navios de guerra no Mediterrâneo ocidental a ordem de “entrar em contato com os franceses e colaborar com eles como se fossem aliados”, incluindo com o poderoso porta-aviões francês Charles De Gaulle que tomará posição e triplicará a capacidade aérea da França.

Ao mesmo tempo, a Rússia reforçava seus recursos. Até ontem, Moscou só utilizava bombardeiros táticos de apoio ao solo. Agora, acrescentará 37 aviões, os poderosos Sukhoi SU-24 e SU-27. E Putin deu suas instruções: “Elaborar um plano comum com os franceses no ar e nos mares”.

Hollande, por sua vez, anunciou que vai a Moscou no dia 26 para discutir uma “coalizão única” contra o EI. Outra reação imediata de Putin: o anúncio de que pretende “reestruturar” a dívida de US$ 3 bilhões da Ucrânia da qual exigia reembolso no dia 6. Ocorre que Putin está disposto a resolver a questão ucraniana – origem da violenta tensão entre Moscou e o Ocidente.

Tudo isso e tamanha mostra de virtudes dá até vertigens. Em contrapartida, desde ontem, nota-se sem nenhuma surpresa que, entre os aliados tradicionais de Paris, o entusiasmo não está no ápice. Obama permanece fiel à sua estratégia prudente, lenta e à aversão que sente pela guerra.

Na Europa Ocidental, a atitude é de polidez. As autoridades aplaudem. Mas, se Hollande proclamou que a França está em guerra, ele se encontra mais ou menos sozinho. Na União Europeia, todo mundo aplaudiu, mas apenas com a ponta dos dedos. Matteo Renzi, o primeiro-ministro italiano, assegura à França sua amizade, mas precisa na mesma frase que “a Itália não está em guerra”.

Em suma, cada um só faz o que considera conveniente e se preocupa com os interesses nacionais. A Europa Unida é assim: desunida, quando o barco enfrenta a tempestade. Há algumas semanas, quando a chanceler alemã, Angela Merkel, decidiu, com grande generosidade, acolher os “migrantes”, descobriu que estava só. Seus vizinhos a criticaram e deixaram que resolvesse seus problemas por conta própria.

Quanto ao britânico David Cameron, decidiu recorrer a um plebiscito para decidir se permanecer ou não na União Europeia. Conclusão: nos momentos em que a união entre os europeus seria mais necessária, os antagonismos se multiplicam. A ponto de se apagarem todos os ‘motores’ da UE.

Um exemplo: um dos mais belos sucessos da UE é a zona de Schengen, que garante a livre circulação dos indivíduos entre os países que a integram. Hoje, o belo sonho de uma Europa sem fronteiras está se distanciando. Mais significativo ainda é o fato de que Hollande declarou que a França não respeitará a regra essencial do euro: restaurar seu déficit a 3% do seu Produto Interno Bruto (PIB)!

Enquanto isso, Putin mexe seus peões, marca pontos. Há um ano, ele se esforça para conseguir o retorno da Rússia entre as grandes potências. Está feito. Sua expressão feliz na cúpula do G-20 em Antália, na Turquia, atestava que ele estava convencido de ter vencido o desafio.

Há ainda um pomo da discórdia entre Moscou e a França: o destino do tirano sírio, Bashar Assar. Teoricamente, a França o considerava seu inimigo número 1, que era preciso erradicar antes mesmo de abordar o problema do EI. Mas, desde terça-feira, Hollande avançou: hoje, o EI tornou-se o inimigo principal.

Do lado russo, é o contrário: ontem, Moscou era o principal e quase único defensor de Assad. Hoje, não há nenhuma dúvida: Putin poderia deixar seu protegido sírio, que não ama absolutamente. Para os russos, Assad não passa de um vassalo, que pode ser substituído depois de usado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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