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Alianças repugnantes

Atualmente, a polarização é a norma na maioria das democracias do mundo

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 05h00

“O partido centrista dominante na Suécia reverte sua posição e anuncia que está disposto a se aliar aos nacionalistas de extrema direita.” “Para se manter no poder, o (primeiro-ministro canadense) Trudeau precisa aprender a trabalhar com seus rivais.” “Israel está a caminho de sua terceira eleição em um ano.” “Os protestos de rua levam o primeiro-ministro do Iraque à renúncia.” “O primeiro-ministro da Finlândia renuncia após o fracasso de sua coalizão.” “Nancy Pelosi anuncia que o Congresso prosseguirá com a acusação formal contra Trump.” Essas foram as manchetes da imprensa na semana passada.

Existem países nos quais os rivais políticos conseguem entrar em acordo e governar compartilhando o poder. Em outros, o ódio entre os oponentes torna impossível qualquer acordo. Os adversários são encarados como inimigos mortais cujas ideias ou ações os desqualificam para qualquer papel na política ou no governo. A possibilidade de uma coabitação política com quem tenha um programa inaceitável ou, pior, que tenha sido acusado de crimes e abusos, é moral e psicologicamente inaceitável para seus adversários. 

Uma aliança com esses inimigos muitas vezes equivale ao suicídio político daqueles que se atrevem a propô-la. Outras vezes, é a solução. Difícil de engolir, certamente, mas sem o qual o país pode estar condenado à paralisia. Por exemplo, entre 2010 e 2011, a Bélgica passou 589 dias sem que as facções em conflito conseguissem formar um governo.

Atualmente, a polarização é a norma na maioria das democracias do mundo. Embora sempre tenha existido, nos últimos tempos foi exacerbada por várias razões – ansiedade econômica, maior desigualdade, novas tecnologias de comunicação, frustração com o desempenho dos governos e muito mais. E essa divisão da sociedade se reflete toda vez que há eleições. Nenhum grupo político recebe votos suficientes para formar um governo, e a única maneira de conseguir isso é aliando-se a outras forças. 

Nem sempre esse foi o caso. Décadas atrás, a África do Sul e o Chile conseguiram evitar a violência política e manter prolongados períodos de estabilidade e progresso graças a alianças entre inimigos históricos.

Nelson Mandela conseguiu o que ninguém acreditava ser possível: uma transição pacífica da hegemonia da minoria branca, que impôs o apartheid, para uma democracia na qual a maioria negra alcançou o poder pelas eleições. No Chile, o movimento democrático negociou um acordo com o general Augusto Pinochet que, para muitos chilenos, era inaceitável. O ditador se manteve não só como senador vitalício, mas como comandante intocável das forças armadas, uma vez que impediu os presidentes eleitos de remover chefes militares do cargo. A constituição também garantiu um número de senadores nomeados a dedo pelos militares e endossou a obrigação de alocar automaticamente às forças armadas 10% da receita gerada pelas exportações de cobre, a principal fonte de divisas do país. 

Obviamente, para aqueles que sofreram as perseguições e torturas da junta militar, aceitar tudo isso foi como ingerir um purgante. No entanto, também no Chile, o resultado da negociação permitiu a transição pacífica de uma ditadura para uma democracia.

Como sabemos, nos últimos tempos, nem o Chile nem a África do Sul conseguiram se salvar das convulsões políticas que incendeiam as ruas. Mas ambas as sociedades se beneficiaram de um longo período em que inimigos políticos conseguiram conviver.

Na África do Sul, após a abolição do apartheid, a economia se expandiu, a inflação caiu e os programas sociais proliferaram, muitos dos quais, pela primeira vez, beneficiaram as maiorias mais necessitadas. 

No Chile, os vários grupos políticos, incluindo os que apoiavam Pinochet e os que foram vítimas, conseguiram entrar em acordo sobre a política econômica. O resultado foi uma das economias mais bem-sucedidas do mundo. Segundo dados do Banco Mundial, em 2000, mais de um terço dos chilenos vivia na pobreza, enquanto em 2017 a proporção de pessoas pobres havia caído para 6,4%.

Tais sucessos não foram suficientes. Na África do Sul, o desemprego, a imensa corrupção e um estado inepto são fontes de grandes frustrações. No Chile, foram negligenciadas as necessidades de vastos setores da sociedade. Nos dois países, a desigualdade econômica está entre as mais elevadas do mundo.

O desafio enfrentado pelo Chile e pela África do Sul é suportado por muitas das democracias do mundo: a criação, em uma sociedade dividida, de acordos entre grupos que se odeiam.

É possível imaginar um futuro no qual as democracias do mundo se dividam entre aquelas que estão atoladas em conflitos irredutíveis que as paralisam e causam estagnação e outras que, graças a acordos entre inimigos políticos, conseguem formar governos capazes de governar. No século XXI, aprender a montar governos com pessoas que se odeiam pode ser um requisito para que as democracias prosperem. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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