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Manifestantes em Bucareste pedem maior conscientização nas eleições para o Parlamento Europeu EFE/EPA/ROBERT GHEMENT

Alimentada por fake news, ultradireita chega fortalecida à eleição europeia

Para analistas, grupos nacionalistas se tornaram ameaças maiores à UE do que potências estrangeiras, como a Rússia, espalhando discurso de ódio e mensagens de supremacia branca por meio de Facebook e Twitter

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2019 | 05h00

LONDRES - Nunca uma eleição para o Parlamento Europeu teve tanta importância como a que começa nesta quinta-feira, 23, com votação no Reino Unido e na Holanda, justamente porque forças nacionalistas de ultradireita contrárias à União Europeia tendem a ganhar espaço em seu Legislativo. A campanha foi marcada por grupos que espalham discurso de ódio e notícias falsas por meio do Facebook e de aplicativos de bate-papo privados e criptografados como o WhatsApp.

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Segundo analistas, estes grupos nacionalistas se tornaram ameaças maiores do que potências estrangeiras, como a Rússia. Os principais alvos são França, Alemanha, Itália, Reino Unido, Polônia e Espanha, onde pelo menos 500 páginas do Facebook foram descobertas nesta semana, às vésperas da eleição.  Cerca de 400 milhões de pessoas em 28 países podem votar nas maiores eleições transnacionais do mundo, escolhendo 751 representantes no Parlamento Europeu.

Nesta quarta-feira, um estudo divulgado pela ONG Avaaz identificou 550 contas do Facebook usadas para disseminar ataques à UE, contra imigrantes e contra minorias étnicas. A rede de contas teria sido criada por cinco ou seis usuários falsos, publicava discursos de ódio e pretendia “espalhar mensagens de supremacia branca”. A Avaaz identificou 328 perfis que partilhavam ataques e notícias falsas. As páginas foram visualizadas 533 milhões de vezes em apenas três meses.

O Facebook eliminou as contas que tinham cerca de 6 milhões de seguidores e nas quais proliferavam notícias falsas e discursos de ódio. A maioria foi descoberta por publicar e partilhar, por meio de perfis falsos, conteúdo desinformativo. A Avaaz está investigando outras contas, que somam 26 milhões de seguidores.

Essas redes eram muito mais populares do que as páginas oficiais dos grupos populistas de extrema-direita e anti-União Europeia (UE) naqueles países. “As páginas têm altos níveis de interação, algumas com milhões de seguidores, mas mesmo as que têm poucos seguidores podem atingir milhões de pessoas em razão das múltiplas interações”, afirmou ao Estado Luca Nicotra, analista do Avaaz na Itália que participou da investigação. Segundo o Avaaz, “eles têm mais de 500 milhões de visualizações apenas nas páginas apagadas, o que é mais do que o número de eleitores na UE”.

As notícias e ataques divulgados por grupos populistas e de extrema direita promovem temas contra imigração, gays e minorias étnicas, além de negar o aquecimento climático. “Antes era possível identificar a participação da Rússia e seus grupos. Agora, o que vemos são grupos transnacionais, como a Far Right, usando notícias falsas e discurso de ódio, além de  um conjunto mais complexo de táticas para amplificar as narrativas populistas”, afirmou à Associated Press Sasha Havlicek, CEO do Institute for Strategic Dialogue, um instituto de consultoria britânico.

As empresas de tecnologia intensificaram os esforços para combater notícias falsas. O Facebook montou uma equipe de pesquisadores e especialistas em inteligência para monitorar abusos. O Twitter lançou uma ferramenta para os usuários da UE denunciarem deliberadamente conteúdo enganoso relacionado a eleições. As duas empresas afirmam não ter detectado nenhum ataque ou perigo vindo da Rússia. As duas empresas de mídia social, juntamente com o Google, reforçaram os requisitos para a publicação de anúncios políticos, incluindo a confirmação de identidades de compradores de anúncios.

Segundo analistas, isso pode estar acontecendo porque as ameaças estão vindo de dentro dos países. Nos últimos três meses, a Avaaz descobriu páginas suspeitas na França, Alemanha, Itália, no Reino Unido, na Polônia e Espanha. Pesquisadores da Universidade de Oxford estudaram nos últimos meses tuítes relacionados às eleições da UE e descobriram na semana passada que apenas uma pequena fração de notícias falsas veio de fontes russas. “Quase nenhuma das porcarias que encontramos circulando online vem de fontes russas conhecidas”, disse Nahema Marchal, pesquisador do Oxford Internet Institute. “Em vez disso, é a mídia caseira, hiper-partidária e alternativa que domina.”

Segundo os analistas, que compilaram cerca de 585.000 tuítes em sete idiomas falados na Europa, as notícias mais populares estavam centradas em temas populistas como ataque à imigração e islamofobia, e poucos atacaram líderes e partidos europeus ou expressaram ceticismo sobre a UE.

Além de postagens no Twitter e no Facebook, muitas mensagens e discussões foram compartilhadas em grupos privados do Facebook ou bate-papos criptografados no WhatsApp e Telegram, que a UE e governos nacionais não podem monitorar com facilidade. / AP, NYT e REUTERS, COLABOROU RODRIGO TURRER

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Futebol, viagens e pets são fachada para fake news na Europa

Em páginas que divulgam vídeos de gatinhos e de autoajuda surgem mensagens contra imigrantes africanos e a favor do partido italiano Liga    

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2019 | 05h00

Uma página de agricultores da Itália publicou, entre recomendações de plantio e dicas de gerenciamento de estoque, ataques a imigrantes africanos e ameaças ao jornalista Roberto Saviano. Um grupo de divulgação de mensagens de autoajuda, vídeos de gatinhos e notícias bizarras, com 1,5 milhão de seguidores, compartilhou um vídeo de cinco imigrantes africanos atacando um carro de polícia.

Uma página de uma revista de moda, lentamente, se transformou em uma divulgadora de textos de apoio à Liga, partido de extrema direita italiano. Essa é a dinâmica de algumas das 550 páginas que a ONG Avaaz – rede para mobilização social global – descobriu e foram fechadas pelo Facebook

A tática incluía a criação de páginas de interesse geral para beleza, futebol e saúde. No entanto, depois que os usuários passavam a seguir as contas, elas se transformavam em ferramentas políticas, usadas para atacar a União Europeia, imigrantes e minorias étnicas. A rede teria sido criada por 5 ou 6 usuários falsos, que criaram 328 perfis cujas páginas foram visualizadas 533 milhões de vezes em apenas 3 meses. 

As páginas não foram apenas direcionadas para as próximas eleições europeias, mas tinham como objetivo mudar a política e dar uma falsa impressão de apoio popular a seu conteúdo. 

A forma com que os grupos buscavam demonstrar isso era por meio de um grande número de seguidores, como a página “I valori della vita” (os valores da vida), que tem 1,5 milhão de seguidores, ou por meio de um grande número de visualizações e interações, caso do grupo “Un Caffè al giorno” (Um café por dia), que compartilhou o falso vídeo de imigrantes africanos atacando o carro da polícia, que teve 10 milhões de visualizações – o vídeo faz parte da cena de um filme.

Além das páginas na Itália, o Avaaz descobriu contas francesas que compartilhavam conteúdo de supremacistas brancos e postagens na Alemanha que negavam o Holocausto e festejam as vitórias eleitorais do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

“Essas redes têm um impacto significativo, elas realizam campanhas de desinformação que duram anos, por exemplo, fazendo com que uma questão específica ganhe muita amplificação e pareça mais importante”, afirmou Christoph Schott, diretor da Avaaz.

A investigação que levou ao fechamento das páginas foi realizada por investigadores independentes e jornalistas contratados pela Avaaz, após uma campanha de financiamento online. Mais de 47 mil pessoas doaram pequenas quantias, tornando o projeto financeiramente independente. 

“O Facebook fez um bom trabalho até agora, mas deveria ter feito melhor ao detectar essas páginas”, disse Schott. “Eles deveriam fazer isso sozinhos. Nós somos cerca de 30 pessoas. E eles têm mais de 30 mil em sua equipe de segurança e proteção.”

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