Eduardo Nicolaru / Estadão
Eduardo Nicolaru / Estadão

Aliviada, Igreja cubana dá últimos retoques em cenário da missa do papa

Chanceler da Arquidiocese de Havana, que há três anos acusou a oposição na ilha de planejar ‘sabotar’ a visita de Bento XVI, supervisiona os trabalhos na Praça da Revolução

Felipe Corazza, ENVIADO ESPECIAL, HAVANA, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2015 | 02h00

Cuba iniciou nesta quinta-feira os últimos ensaios para receber o papa Francisco, que chegará à ilha no fim da tarde de sábado. Responsável por acusar a oposição cubana de planejar “sabotar” a visita feita há três anos por Bento XVI, o monsenhor Ramón Suárez Polcari, chanceler da Arquidiocese de Havana, acompanha com aliviada tranquilidade os preparativos da viagem papal desta vez.

Nesta quarta-feira, o religioso supervisionou os trabalhos na Praça da Revolução, onde está quase pronta a estrutura para a missa que o pontífice rezará no domingo, um dia após sua chegada a Cuba. Em 2012, Polcari estava preocupado com atos de opositores. Agora, inspeciona atentamente o penúltimo ensaio da orquestra e do coral que se apresentarão durante a celebração.

“Essa visita tem vários significados. Como Igreja, temos o privilégio de receber o Santo Padre. E ele também traz uma mensagem para o povo cubano”, afirmou o monsenhor ao Estado. Apesar de ser a terceira viagem de um papa à ilha, o fato de o Vaticano, sob o comando de Francisco, ter sido o principal mediador do diálogo que levou à retomada das relações entre Cuba e os EUA aprofunda a importância do roteiro que o pontífice fará a partir de amanhã.

“Francisco é o promotor de um diálogo cada vez mais concreto. Nem tudo está resolvido, mas as portas se abrirão”, avaliou Polcari sobre o lado político e diplomático da viagem papal – ao deixar Santiago de Cuba, última etapa da passagem pelo país, o líder da Igreja Católica embarcará diretamente para os Estados Unidos. 

Além da importância no processo de retomada das relações com Washington, Francisco é esperado em Havana com a imagem de um latino-americano que efetivamente “mudou as coisas”, como diz o próprio Polcari. “(O papa) trará uma mensagem ao povo, como fez na América do Sul – no Equador e na Bolívia. Ele consegue sentir muito o que sentimos os latinos, sabe nossa linguagem.”

Fiéis. Ao lado do altar já quase pronto para a missa, trabalhadores descarregavam cadeiras e outros equipamentos para os detalhes finais do evento. Acompanhando a movimentação, três religiosas da ordem Missionárias da Caridade, fundada por Madre Teresa de Calcutá, faziam reconhecimento do terreno na preparação para a missa. As três integram uma missão do grupo em Cuba, com dez sedes espalhadas no país.

Nascida nos EUA, a irmã Teresel, que prefere não dizer o sobrenome, espera que a visita de Francisco dê um impulso à religiosidade em Cuba. “Há muita necessidade espiritual. Deus foi varrido desse país”, afirmou, em referência às políticas de restrição ao culto adotadas pelo regime dos Castros desde o triunfo da Revolução de 1959.

Apesar dos esforços do regime, no entanto, muitas famílias mantiveram as raízes religiosas e passaram a cultura às novas gerações.

Um dos exemplos é Arisley, de 22 anos, violoncelista na orquestra que acompanhará a missa. Em um intervalo no ensaio de ontem, a jovem contou à reportagem que toda sua família é católica e ela acompanha a tradição. 

Na visita de Bento XVI, Arisley já havia participado da parte musical, tocando seu instrumento em uma orquestra de menor porte que se apresentou para o pontífice em evento privado. Agora, ela estará no evento principal de Francisco. “Nosso povo é um povo religioso. Todos estão felizes e dando o máximo para recebê-lo bem. E dando-lhe música, que é uma das coisas que os cubanos podemos oferecer de melhor ao mundo.”

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