Enrique De La Rosa/Reuters
Enrique De La Rosa/Reuters

Alívio de sanções beneficiaria Brasil

Aumento do fluxo comercial e das vendas para a ilha, porém, dependem de decisão de Havana e da concorrência de produtos americanos

DENISE CHRISPIM MARIN, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2014 | 02h02

O eventual aumento do comércio EUA-Cuba, com as medidas anunciadas ontem, tende a deslocar exportações brasileiras para a ilha, que somaram US$ 447,4 milhões entre janeiro e novembro deste ano. Longe de se favorecer automaticamente por fazer negócios há mais tempo com Cuba, o Brasil apenas terá preferência na venda de itens e serviços que concorrem com os americanos se houver decisão política do governo de Raúl Castro.

O Porto de Mariel, a 50 quilômetros de Havana, é um exemplo de negócio que trará prosperidade a Cuba. No entanto, o fato de a obra de modernização ter sido tocada pela Odebrecht, com financiamento de US$ 1,52 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), não significa benefício automático para o Brasil. A operação portuária já está nas mãos PSA, companhia de Cingapura considerada a mais eficiente do mundo no setor.

A Odebrecht não atuará na área, como confirmou sua assessoria de imprensa. "A versão de que essa obra nos traria benefícios é uma ilusão", afirmou o ex-titular da Câmara de Comércio Exterior (Camex) Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da consultoria Kaduna.

Dos dez principais produtos exportados pelo Brasil a Cuba, apenas um não tem concorrência dos EUA - o café em grãos. Óleo de soja bruto e refinado, bagaço de soja, arroz, milho, carne de frango em pedaços, embutidos, sabão e leite integral podem ser fornecidos facilmente pelos americanos, desde que os contratos sejam autorizados pelo Departamento do Tesouro dos EUA. De janeiro a novembro, esses itens formaram 61% das vendas do Brasil a Cuba.

"Não existe almoço grátis. Houve muito mais concessão unilateral dos EUA, no anúncio de hoje (ontem), do que de Havana. Certamente, isso implicará na preferência de Cuba por produtos americanos", disse José Augusto de Castro, presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB).

Castro diz que o governo cubano é capaz de manter suas compras de produtos e serviços do Brasil por uma questão de afinidade histórica e de reconhecimento pelas inúmeras vezes que o País rompeu o embargo americano para fazer negócios com a ilha. A mesma Odebrecht que ampliou o porto de Mariel com recursos do BNDES atua em um projeto de revitalização da produção de cana-de-açúcar em Cuba.

O Brasil também poderá ser "recompensado" pelo apoio dado ao turismo na ilha e às importações de medicamentos cubanos nos anos 90. Dos 24 itens embarcados por Cuba ao Brasil em 2014 apenas um respondeu por 86,2% do total: extrato de glândulas para a fabricação de remédios. Segundo Giannetti, o Brasil poderá ganhar com o aumento do potencial exportador de Cuba, que criará as divisas necessárias para elevar suas importações. Ele vê possibilidades para os setores de papel e celulose, de produtos químicos e de máquinas - sempre em concorrência com os americanos. "Os cubanos querem importar de tudo, mas hoje não têm capacidade financeira. Importante será Cuba se transformar em uma plataforma de exportação no Caribe", afirmou Giannetti.

O comércio Brasil-Cuba é pequeno - US$ 419 milhões nos 11 meses do ano, o que significa 0,12% do comércio exterior brasileiro. Para o País, no entanto, o número não é desprezível. No mesmo período, o Brasil teve um saldo positivo de US$ 401,2 milhões com Cuba - exportou US$ 447,4 milhões e importou US$ 46,2 milhões.

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