Alta do petróleo intensifica conflitos

Guerras entre nações, violência separatista e governos instáveis são conseqüências do preço exorbitante do barril

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

Guerras pelo controle do petróleo são constantes desde o início do século 20. Elas variam apenas de caráter, sejam disputas territoriais por regiões petrolíferas ou instabilidades políticas causadas pelo controle da máquina estatal de nações produtoras. À medida que o petróleo se torna mais raro - e caro -, a intensidade dessas hostilidades aumenta e novos conflitos tendem a surgir.A crise é o desfecho de um drama com três atores: aumento da demanda, limitação da oferta e extrema dependência do petróleo. Para sustentar taxas de crescimento de países emergentes como China e Índia, que se aproximam dos 10% ao ano, o mundo devora, segundo o Departamento de Energia dos EUA, cerca de 85 milhões de barris por dia, o dobro do que consumia em 1970.Completando o cenário, o petróleo se aproxima rapidamente de seu pico de produção, ponto no qual a metade de todas as reservas é extraída do solo, que será seguido de um declínio irreversível. "Existe um bate-boca científico sobre quando isso ocorrerá. Especialistas mais otimistas dizem que será em 2030. Outros, mais realistas, afirmam que não passará de 2015", afirma o analista Paul Roberts, autor do livro The End of Oil."Esse panorama aumenta o valor econômico e estratégico das reservas petrolíferas que ainda restam e intensificam as disputas pelo acesso a elas", disse ao Estado, por telefone, Michael Klare, especialista em segurança internacional da Universidade de Massachusetts e autor do livro Blood and Oil, que traça um perfil dos novos conflitos por petróleo."O petróleo é hoje o maior combustível de lutas internas pelo controle dos lucros em Estados produtores, como Venezuela, Nigéria e Iraque", afirmou Klare. "Essa instabilidade aumenta ainda mais o preço do petróleo. Não acredito que essa tendência se reverta tão cedo."Na Venezuela, o petróleo responde por cerca de 90% das exportações. "O poder, basicamente, se resume ao controle da alocação desses recursos", afirmou Klare. "Essa disputa política entre grupos de interesse, facções e partidos rivais causa instabilidade interna." Em muitos casos, os lucros do petróleo também servem para promover uma determinada política externa. No caso venezuelano, o presidente Hugo Chávez usa o petróleo para exportar sua agenda bolivariana, subsidiando a venda do produto para Cuba, República Dominicana e Nicarágua e criando atritos regionais. A dependência da Arábia Saudita é ainda maior, mas o padrão é o mesmo. O petróleo representa 95% das exportações, 75% das receitas do Estado e 40% do PIB saudita. O governo tenta se equilibrar entre o pacto antiterror com os EUA e a pressão dos wahabistas, linha fundamentalista do Islã que domina o ambiente político e cultural do país. Segundo analistas, o medo de uma revolução islâmica, como a iraniana, deixa o governo à mercê dos radicais e muitos suspeitam que parte do financiamento de grupos terroristas venha do petróleo saudita. Uma das razões seria o próprio tamanho da família real, que teria hoje cerca de 7 mil príncipes. Centenas deles estão alijados do poder, mas recebem parte dos royalties, que seriam enviados para organizações terroristas.Embora ninguém ponha em dúvida a estabilidade do regime dos aiatolás, o Irã também é um caso clássico de como o petróleo pode comprar influência externa e exportar conflitos. Parte das receitas com a exportação de petróleo são queimadas no financiamento do Hezbollah, grupo de oposição xiita no Líbano, e do Hamas, que domina a Faixa de Gaza.A instabilidade também ganha a forma de movimentos separatistas. Isso já acontece com a Província de Aceh, na Indonésia, no Curdistão iraquiano e no Estado de Delta, na Nigéria. As agitações sociais surgiram de uma profunda insatisfação com a distribuição da riqueza e acabaram se degenerando em lutas separatistas.Confrontos entre nações soberanas por causa da descoberta de poços petrolíferos também se tornarão mais comuns. Existem hoje pelo menos três pontos de conflito: no Mar Cáspio, entre Irã e Azerbaijão; na Península de Bakassi, entre Nigéria e Camarões; e nas Ilhas Spratly, disputadas por Vietnã, China, Malásia e Filipinas - neste último caso, apenas os rumores da presença de gás e petróleo bastaram para aumentar a tensão na região. "O risco de conflitos armados por causa do petróleo deve aumentar nos próximos anos", prevê Klare. "Eles podem envolver Estados ou simplesmente acirrar cisões internas que já existiam."A primeira explicação para esse fenômeno é que o planeta é viciado em petróleo. Hoje, ele é responsável por 37% da energia consumida no mundo. O carvão vem atrás, com 25%, seguido pelo gás natural, 23%, e pela energia nuclear, 6%. Ele é vital para a rede de transportes - por terra, ar e mar - e move todo o aparato militar: tanques, aviões, navios e mísseis. Além disso, o petróleo é componente básico na produção de plásticos, fertilizantes, tintas e solventes.O problema começa pela distribuição irregular do petróleo no globo. Dois terços das jazidas ficam em países do Golfo Pérsico. "Os poços de petróleo mais antigos estão localizados em países que se industrializaram há mais tempo. A maioria já ultrapassou seu pico de produção e está decadente", disse Klare. "O centro de gravidade do petróleo está se movendo na direção de nações em desenvolvimento, como Angola, Nigéria e Arábia Saudita. Isso é importante porque muitos desses países produtores são Estados cronicamente instáveis ou berço de antiamericanismo."O Departamento de Energia dos EUA estima que nos próximos dez anos a parcela de petróleo extraído de Europa, EUA e Canadá caia de 27% para 18% da produção mundial. Por isso, é cada vez maior o número de analistas que descartam o terrorismo ou o choque entre a civilização cristã ocidental e o mundo islâmico como o principal estopim de guerras no futuro. "Na ausência do conflito ideológico, que marcou os últimos 50 anos, estamos retrocedendo ao mesmo padrão de competição econômica e militar do início do século 20", disse Klare. O pesquisador americano enxerga algumas semelhanças entre a perspectiva atual e a crise vivida nos anos que antecederam a 1ª Guerra, quando a competição era por outra forma de energia: o carvão. Na época, um dos barris de pólvora da Europa eram os territórios da Alsácia e da Lorena, ricas em carvão, que acirraram a rivalidade entre França e Alemanha.Hoje, a corrida pela exploração do Ártico e da Antártida esconde um processo semelhante. Estima-se que mais de 25% de todo o petróleo e gás ainda não explorados do planeta estejam nos pólos. Em 2007, um submarino russo fincou uma bandeira de titânio no fundo do Oceano Ártico, que Moscou diz ser uma extensão de seu território. O gesto abriu uma crise entre Canadá, EUA, Rússia, Noruega e Dinamarca para saber quem é o dono do Pólo Norte. A mesma razão levou a Grã-Bretanha a reivindicar direitos de soberania sobre 1 milhão de quilômetros quadrados da Antártida, em outubro. O objetivo é estender os direitos britânicos de exploração de petróleo no Pólo Sul. A decisão de Londres irritou argentinos e chilenos, que reivindicam parte dessa área.

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