Alta na comida acirra crise venezuelana

Estudo da consultoria Ecoanalítica mostra que itens como farinha de trigo e carne ficaram 74,5% mais caros nos últimos 12 meses

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h01

Em meio aos protestos contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o aumento do preço dos alimentos no país ameaça uma das principais conquistas do governo chavista, a segurança alimentar, indica estudo da consultoria Ecoanalítica. Preços de itens como frango, farinha de milho, arroz, carne e banana subiram 8,9 pontos porcentuais acima da média dos alimentos e 11,1 pontos acima da inflação geral entre 2009 e 2012.

No período de 12 meses encerrado em fevereiro, de acordo com o Banco Central da Venezuela (BCV), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor no país foi de 57,3%. Os alimentos subiram mais ainda no mesmo período. Ficaram 74,5% mais caros. "Ainda que os avanços em matéria de alimentação e nutrição nos últimos anos sejam destacáveis, é importante lembrar que esse consumo de alimentos está ameaçado por uma escalada nos preços que prejudicam principalmente os mais pobres", diz o estudo.

"Os alimentos não são apenas o grupo de produtos com a maior ponderação dentro do INPC, mas também um dos que têm a maior volatilidade e um dos poucos que têm se mantido acima da média da inflação geral nos últimos quatro anos."

Ameaça. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a inflação dos alimentos da Venezuela já é a maior da América Latina, bem acima do segundo país da lista, o Uruguai, onde o preço da comida, nos últimos 12 meses, subiu 10,4%.

Ao longo dos últimos anos, os alimentos têm pesado mais na cesta de consumo dos venezuelanos. Em 1997, correspondiam a 22,9% dos gastos médios. Em 2007, equivaliam a 29,1%. Hoje, as despesas com alimentação respondem por 37% do que desembolsam as famílias, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE).

Ainda de acordo com o instituto, as condições econômicas atuais continuam a permitir que 94,6% da população venezuelana faça pelo menos três refeições por dia.

Segundo os analistas, a base desse sucesso no esforço para garantir o mínimo de segurança alimentar está ameaçada. Os resultados positivos de medidas como a oferta de alimentos subsidiados em mercados populares, o congelamento de preços e os programas sociais do chavismo têm sido corroídos pela crise econômica, segundo as avaliações mais recentes feitas por economistas venezuelanos.

Câmbio. A distorção cambial provocada pela escassez de dólares, a falta de controle do câmbio paralelo e o congelamento de preços tornaram os produtos venezuelanos muito baratos para quem vem de fora do país. Com isso, estima o governo, cerca de 40% da produção de bens que circulam no país estão sendo contrabandeados para a Colômbia.

"Os alimentos subsidiados contam com a vantagem cambial de serem importados pelo governo ao câmbio de 6,30 bolívares por dólar, mas eles desaparecem das prateleiras rapidamente em razão do contrabando e da sonegação de produtos. Com isso, nem sempre chegam à mesa da população mais pobre", disse ao Estado o economista Boris Ackerman, da Universidade Simón Bolívar.

"A maneira mais adequada de oferecer subsídio para evitar uma escassez de alimentos em tempos de inflação, como a que temos hoje, seria a troca de cupons por comida, já que os cupons não poderiam ser comercializados nem contrabandeados."

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