AJ Mast/The Washington Post
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Alta nos casos do coronavírus em muitos estados americanos acende alerta para surto de outono

Organizações que rastreiam o vírus registraram altas no número de casos e na proporção de resultados positivos - tendências perigosas quando os EUA alcançaram na terça feira a sombria marca de 200.000 mortos.

Joel Achenbach e Karin Brulliard, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 11h53

O progresso na luta para frear o avanço do novo coronavírus perdeu fôlego em boa parte dos Estados Unidos, e o patógeno está se disseminando a um ritmo perigoso em muitos estados com a chegada do outono e do clima mais frio - tradicionalmente preferido pelos vírus - em todo o território americano, de acordo com dados de saúde pública.

Organizações que rastreiam o vírus registraram altas no número de casos e na proporção de resultados positivos - tendências perigosas quando os EUA alcançaram na terça feira a sombria marca de 200.000 mortos. As hospitalizações e mortes seguem abaixo do auge observado em meados do verão, mas esses números estão sempre semanas atrasados em relação às tendências entre as novas infecções.

Vinte e sete estados e Porto Rico apresentaram alta na média semanal de novos casos confirmados desde a última semana de agosto, de acordo com análise de dados de saúde pública feita pela reportagem. As médias semanais em Minnesota, Montana, Oklahoma, Porto Rico, Utah, Wisconsin e Wyoming alcançaram novos recordes na segunda feira.

O quadro global reafirmou que a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, não deve desaparecer tão cedo. Países que tiveram sucesso contendo o ritmo de contágio no início da pandemia, como Israel, França e Espanha, estão agora enfrentando uma segunda onda e instituindo novas quarentenas. A maioria das pessoas continua suscetível à infecção, e o vírus é extremamente contagioso.

“Nenhum país está a salvo", disse Jennifer Nuzzo, epidemiologista do Centro Johns Hopkins para a Segurança de Saúde. “Nesse momento, nenhum país pode relaxar e supor que já tenha deixado para trás o pior da pandemia."

É cedo demais para saber se um grande surto de infecções está começando em escala nacional com a chegada do outono, algo que os especialistas em doenças infecciosas há muito temem. Tendências estatísticas de curto prazo podem ser influenciadas por detalhes na forma de testar e informar o casos. Além disso, os especialistas alertam que é impossível prever o comportamento humano e qualquer previsão que ultrapasse a marca de algumas semanas só pode ser considerada especulativa.

As tentativas de rastrear o contágio foram complicadas pela liberação nacional de milhões de testes para o antígeno do coronavírus, que oferecem resultados rápidos, mas são menos sensíveis do que testes genéticos de reação em cadeia de polimerase (PCR). Muitos estados deixam de informar esses resultados, confundindo os esforços para rastrear a propagação do vírus.

“Suspeito que haverá um número cada vez maior de estados apresentando dados pouco confiáveis", disse David Rubin, diretor do PolicyLab no Hospital Pediátrico da Filadélfia, onde há um modelo prevendo a transmissão nos municípios de todo o país.

O certo é que os EUA, como muitos outros países, segue em posição precária em meio a pandemia mais impactante em mais de cem anos. As autoridades de saúde são inequívocas ao insistir que o público evite a complacência e mantenha as medidas de precaução, como o uso de máscaras e o distanciamento social, que se mostraram eficazes para limitar o contágio.

“Estamos em um momento muito vulnerável porque, em primeiro lugar estamos rumando na direção errada", disse Jennifer. “O número de casos está aumentando. O número de resultados positivos está aumentando."

Michael Osterholm, epidemiologista da Universidade de Minnesota, disse: “Acho que estamos apenas no início do que será uma alta acentuada no número de casos durante o outono. E não estamos falando de nada ligado à metodologia de teste. É uma situação real".

Os rastreadores da doença estão observando o número reprodutivo do vírus - número de pessoas que cada pessoa infectada contagia, em média. Quando esse número fica acima de um, o resultado é uma disseminação viral exponencial. O epidemiólogo Jeffrey Shaman, da Universidade Columbia, disse na segunda feira que o modelo de disseminação do coronavírus criado por sua equipe mostrava que 579 municípios nos EUA, muitos situados no Meio-Oeste e no Vale do Mississippi, apresentavam no domingo número reprodutivo superior a um.

Muitos dos surtos recentes ocorreram em campi universitários, trazendo tensão para as cidades que os abrigam e mergulhando no caos a primeira parte do ano acadêmico de milhões de estudantes.

Em Madison, Wisconsin, o prefeito de Dane County, Joe Parisi, criticou repetidas vezes os funcionários da Universidade do Wisconsin pela decisão de trazer os alunos de volta ao campus apesar do alto risco de novas infecções.

“Estamos chegando em um momento do ano em que, em todo o país, estamos preocupados com uma segunda onda", disse Parisi em entrevista. “Meu maior temor é pensar que isso pode desencadear essa segunda onda alguns meses antes do previsto."

As aulas na universidade começaram no início de setembro, e o número de casos em Dane County explodiu pouco depois. Entre 1º e 14 de setembro, 1.818 estudantes e funcionários da universidade tiveram resultado positivo, representando 76% dos casos no município, de acordo com o departamento de saúde local.

A universidade transferiu as aulas para a internet por duas semanas, até sexta feira, na tentativa de limitar o contágio. Na segunda feira, havia 454 estudantes em isolamento no campus e outros 115 estavam de quarentena nos alojamentos estudantis. Dois dormitórios e todas as fraternidades estão sob quarentena.

O departamento de saúde pública de Madison e Dane County disse em e-mail que o rastreamento de contatos e a análise das tendências nos casos indicam que o surto no campus não desencadeou uma transmissão mais ampla na comunidade. Mas Parisi disse que a alta nos casos na jurisdição já está afetando a região como um todo, incluindo atrasos na reabertura dos negócios.

Parisi destacou que a universidade estadual fica fora da jurisdição municipal.

“Eles tomaram a decisão por conta própria. Não pediram nossa permissão", disse ele. Parisi disse que a direção da universidade deve reconhecer que seu "experimento" fracassou. “Trazer as pessoas de volta ao campus não funcionou e, na verdade, deu início a um surto de casos em meio a uma comunidade de mais de meio milhão de pessoas.”

Em declaração na segunda feira, Rebecca Blank, chanceler da UW-Madison, respondeu que as autoridades locais não fizeram o suficiente para deter as aglomerações de  estudantes fora do campus. Ela disse que a universidade adotou medidas "rigorosas", incluindo testes agressivos, que levaram a uma queda no número de casos na semana mais recente.

Em Boulder, Colorado, a Universidade do Colorado impôs na semana passada uma quarentena de duas semanas para todos os estudantes vivendo na cidade, por recomendação das autoridades de saúde locais. Mas as regras da quarentena não são muito rigorosas: os estudantes ainda podem frequentar aulas presenciais e até frequentar a academia de ginástica do campus.

“Temos que deter essa alta nos casos", disse Jeff Zayach, diretor executivo da Boulder County Public Health [agência de saúde pública de Boulder], em entrevista coletiva na semana passada.

Na região conhecida como cinturão do sol, a altas dos casos durante o verão em muitos locais foi seguida por um lento e teimoso declínio. Uma exceção é o Arizona, onde os casos caíram muito, bem como as hospitalizações e mortes.

Isso ocorre em boa medida por causa de uma alta generalizada no uso de máscaras, seguindo as orientações das autoridades municipais, de acordo com Joe Gerald, professor assistente de saúde pública da Universidade do Arizona que produz relatórios semanais da trajetória da pandemia no estado.

Ele também disse que a atenção da mídia e campanhas públicas de educação levaram os habitantes do estado a levar a sério a ameaça do vírus, mudando seu comportamento. De acordo com ele, outro fator foi a decisão de fechar bares, academias de ginástica, cinemas e outros negócios, tomada em junho pelo governador republicano Doug Ducey. Muitos desses estabelecimentos seguem fechados.

“Nossa contagem de casos é comparável à do início de maio", disse Gerald. “Nossa ocupação dos hospitais está como em abril."

Mas ele disse que, apesar das boas notícias, cresce a preocupação com a possibilidade de focos emergentes de contágio como as universidades do estado podem espalhar o vírus para além dos campi.

O assessor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, disse na segunda feira que os EUA tinham “recuperado o controle" do vírus, ecoando um artigo do vice-presidente Mike Pence publicado em junho no Wall Street Journal dizendo que o país já tinha deixado para trás o pior da pandemia.

Mas cientistas e médicos alertam consistentemente que a vigilância do público e precauções de bom senso - entre as quais lavar as mãos com frequência - são fundamentais para combater o vírus, que circula em quase todo o país e vai explorar a complacência do público.

“Quando relaxamos, o vírus ressurge", disse Gerald. “Quando somos disciplinados, ele recua. É uma montanha russa de altos e baixos."

A pandemia está testando a resistência de todos, mas as pessoas precisam entender que será necessário manter-se preparado para enfrentá-la por mais algum tempo, disse Jennifer. Isso não significa trancar-se em casa e jamais sair novamente, disse ela. De acordo com especialistas em saúde, o isolamento excessivo deve ser evitado por causa do seu impacto psicológico.

Mas eles também alertam contra a ideia de que essa crise vai acabar de repente - mesmo se, em uma determinada comunidade, a pandemia der sinais de recuo.

“É quase como o olho do furacão", disse Rubin. “Saímos desse ressurgimento de verão pensando que o pior ficou para trás, e vemos uma súbita calmaria. . . . Temos uma falsa sensação de segurança, pensando que o pior já passou, quando na verdade falta atravessar o furacão até o outro lado." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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