(Photo by Gian MASKO / AFP)
(Photo by Gian MASKO / AFP)

'Alta polarização e redes sociais facilitam discurso de fraude no Peru'; leia a entrevista

Para analista política peruana, é preocupante a falta de maturidade política da sociedade e dos partidos em não querer reconhecer resultados

Entrevista com

Alexandra Ames, analista política peruana

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2021 | 20h00

A disputa pela presidência peruana segue sendo contada voto a voto e o resultado aguardado com ansiedade pela população e pelos concorrentes: Pedro Castillo e Keiko Fujimori. O candidato de esquerda se declarou nesta quarta-feira, 9, o vencedor, mas sem haver o resultado oficial. Enquanto isso, do outro lado, o fujimorismo fala em fraude eleitoral. Para a analista política peruana Alexandra Ames, a alta polarização no país e o fato de a informação mais rápida chegar pelas redes sociais propiciam a aceitação do discurso de processo irregular e favorecem a instabilidade política. 

Como está o cenário da disputa atualmente?

É quase certo que Pedro Castillo seja eleito, mas o problema é que alguns grupos ao redor de Keiko tentam impugnar atas de votação e isso poderia tirar votos de Castillo. Como a disputa está muito apertada é possível que, com isso, Keiko consiga ficar em primeiro. É muito difícil, mas aflora a sensação da população de incerteza. Não temos muitas informações e as informações pelas redes sociais são muito mais rápidas do que as notícias em meios tradicionais, mas não temos como saber o que é fake news, por exemplo.

Como a sra. interpreta esse discurso de não reconhecer o resultado?

É muito irresponsável uma organização política usar o ânimo dos cidadãos com a palavra ‘fraude’. Keiko tem dado a entender que respeita as instituições e diz que são os porta-vozes do partido Peru Livre, de Castillo, que não souberam respeitar o voto do fujimorismo. Mas as pessoas ficam confusas porque o processo de recontagem de atas é complexo e o cidadão comum não sabe exatamente como funciona, por isso estamos mais vulneráveis a acreditar nas hashtags do que nos meios de comunicação.

Do lado de Castillo já houve essa mesma afirmação. 

Tenho a sensação de que se fosse o contrário (Keiko na frente) o mesmo aconteceria. Na verdade, dias antes das eleições, os dois lados falavam em possível fraude eleitoral. No domingo pela noite com os primeiros resultados, mostrando Keiko em primeiro lugar, os simpatizantes de Castillo começaram a se manifestar dizendo que havia fraude. Depois com a virada e Castillo na frente, simpatizantes de Keiko começaram a gritar fraude. É muito preocupante a falta de maturidade política da sociedade e dos partidos em não querer reconhecer resultados, assim a democracia não funciona.

Como isso impacta o futuro político de um país que vem de anos de crise?

É muito preocupante e perigoso para  a estabilidade política e democrática do país. Além disso, não é apenas a insatisfação da metade da população sem conformidade com o presidente eleito que preocupa, mas temos um Parlamento muito rachado que tem as ferramentas para tirar o presidente do poder a qualquer momento. O risco agora não é apenas o presidente que fica por tempo indeterminado no poder, mas que o presidente não termine seu mandato. O Congresso tem as ferramentas necessárias para o equilíbrio de poder. Se usa como ferramenta tóxica para alterar o funcionamento correto da democracia, isso mostra um autoritarismo que pode desestabilizar o país.

Como está a reação popular a esse momento?

Tivemos manifestações cidadãs, não massivas, mas suficientes para identificar que existe uma inconformidade com o que está acontecendo. Não se identificou nada violento até agora. Mas como o clima está muito polarizado, se você não apoia um dos lados não é alguém que ama o país e acaba sendo insultado. Esse nível de polarização opaca a possibilidade de lideranças de centro que podem chamar à tranquilidade, pedir calma, aparecerem. Os líderes políticos estão de um lado ou de outro e o que mais precisamos agora é de equilíbrio.

E os grupos mais de centro que apoiaram o fujimorismo nessa eleição não podem ser essas vozes?

Eles seriam as vozes chaves e podem chamar à sensatez, mas estão ausentes nesse momento, não falam.  

 

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