Alteração no local em que avião caiu afeta perícia

Experts começam a inspecionar destroços só 5 dias depois de tragédia que matou 298

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL , GABROVO, UCRÂNIA, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2014 | 02h03

Quando os peritos internacionais chegaram ontem ao local da queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines, em Gabrovo, no leste da Ucrânia, encontraram a cena sem nenhum isolamento. A falta de segurança e as imagens de rebeldes revirando os destroços do avião, segundo especialistas, contaminam a perícia e afetam as investigações para descobrir o que de fato ocorreu com o voo MH17.

Cinco dias após a tragédia que deixou 298 mortos, o trabalho dos investigadores internacionais começou ontem pela manhã sob a escolta de separatistas armados. No mesmo momento, em Kharkiv, um trem com a maioria dos corpos das vítimas deixou a zona de conflito.

O início das investigações e a retirada dos cadáveres da região de Donbass foram avanços obtidos pela comunidade internacional depois que o governo do presidente da Rússia, Vladimir Putin, viu-se pressionado pela ameaça de novas sanções econômicas por parte dos EUA e da União Europeia.

Na madrugada de ontem, o líder separatista russo, Alexander Borodai, aceitou entregar as caixas-pretas do voo MH17 e outros equipamentos para funcionários do governo malaio. O material foi repassado ontem para especialistas holandeses.

No fim da tarde, horário local, o governo da Bélgica informou que enviará à Ucrânia um avião para buscar as caixas-pretas, que serão enviadas para Farnborough, na Grã-Bretanha, onde serão analisadas.

O sinal verde dado pelos rebeldes foi visto como um avanço da parte dos separatistas, que até então impediam o acesso dos peritos internacionais e também de equipes de resgate da Ucrânia ao local dos destroços da aeronave.

Na manhã de ontem, o Estado acompanhou o início dos trabalhos dos peritos na região de Gabrovo, onde uma cerimônia em homenagem às vítimas foi realizada por mulheres ortodoxas. Três peritos internacionais examinaram peças do aparelho, dedicando muito tempo aos restos do estabilizador vertical, também chamado de deriva, que fica na cauda do avião.

Eles foram acompanhados de longe por agentes da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), vestidos com coletes à prova de balas, e por milicianos separatistas, armados com fuzis AK-47. Nenhum pronunciamento foi feito pelos especialistas.

Mesmo com a presença dos investigadores internacionais, porém, em outros dois locais da queda do Boeing 777 - um em Gabrovo, outro em Rozsypne -, o acesso aos destroços não era controlado por ninguém, apesar de todos os indícios que ainda podem se encontrar na região. De acordo com Jan Tuinder, chefe da delegação holandesa enviada à região de Donbass, o trânsito livre à região do acidente é um problema não só para a investigação sobre as causas da queda, mas também para a localização dos cadáveres que seguem desaparecidos. "Há seguramente restos de outros corpos no local do acidente", afirmou Tuinder.

Análise. O governo holandês afirma que cerca de 200 corpos - e não 272, como afirmam os separatistas - foram armazenados nas câmaras frias do trem que partiu de Torez em direção a Kharkiv noite de segunda-feira. Segundo o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, os cadáveres serão transportados por avião para seu país ainda hoje. "O primeiro avião partirá para Eindhoven", afirmou o premiê. Ainda sobre os corpos, Rutte afirmou que em geral a identificação será rápida, mas em alguns casos pode levar meses.

No plano diplomático, os governos da Rússia e da Ucrânia seguiram trocando farpas ontem. Após reunião no Kremlin, o presidente russo, Vladimir Putin, garantiu que seu país trabalhará na apuração das responsabilidades sobre o disparo do míssil que abateu o avião.

No entanto, ele aproveitou para enviar uma mensagem a Kiev: Moscou não tem influência sobre o separatistas. "A Rússia fará tudo o que estiver ao seu alcance para uma investigação completa, em profundidade e transparência", disse Putin. "Nos pediram para fazer pressão sobre a rebelião. Nós faremos tudo o que estiver a nosso alcance, mas isso não será suficiente." Em Kiev, o governo ucraniano subiu o tom mais uma vez, instaurando um processo contra Serguei Shoigu, ministro da Defesa da Rússia, por formação de grupos armados ilegais. "Os separatistas são comandados por cidadãos russos, que cometem sistematicamente ataques armados contra órgãos do Estado, unidades especiais das Forças Armadas, da Guarda Nacional, empresas e organizações, o que causou muitas perdas de vidas, destruição e outras graves consequências", afirmou, em nota, o governo ucraniano.

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