Alternativa à Alca é tema de encontro paralelo em Quebec

Há muito mais do que livre comércio na pauta da 3ª Cúpula das Américas, dizem os organizadores do evento que reunirá, com exceção do cubano Fidel Castro, chefes de governo de todo o hemisfério.Essa mensagem é o primeiro fracasso político da grande reunião. Jornais, televisão, gente da rua e os milhares de participantes da Cúpula dos Povos das Américas, o grande evento paralelo, misturam os temas sociais com a discussão da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas, projetada para entrar em operação, progressivamente, a partir de 2006.Na 2ª Cúpula dos Povos - a 1ª foi celebrada em Santiago do Chile, em 1998 - está em debate um modelo alternativo de integração continental, onde se articulam propostas sobre comércio, investimento, combate à pobreza, promoção dos direitos humanos e preservação do ambiente.A discussão inclui uma revisão crítica de experiências de integração regional, como as da União Européia, do Mercosul e do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta).Esse tema será examinado nesta quarta-feira, no Fórum Sindical, um dos nove foros temáticos programados para esta semana. Agricultura, ambiente e função do Estado na redistribuição de riqueza estão sendo apresentados como alguns dos assuntos mais quentes.Um dos seis expositores do Fórum Sindical será o secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Kjeld Jakobsen. A experiência do Nafta, segundo ele, é especialmente importante, neste momento: tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá, lembra o representante da CUT, a Alca é imaginada como extensão do zona de livre comércio da América do Norte.O Nafta foi mau negócio para os trabalhadores dos Estados Unidos e do Canadá, segundo Jakobsen, e não chegou a ser bom negócio para os mexicanos. Empresas dos dois países mais ricos investiram no México, em busca de mão-de-obra barata, mas não criaram empregos de qualidade.Apesar desses investimentos, acrescenta, os mexicanos continuam a queixar-se da queda de salários, provocada pela reestruturação das indústrias. Para os trabalhadores dos Estados Unidos e do Canadá, o livre comércio, nesse caso, resultou em transferências de empregos. No caso canadense, houve também redução de salários.A experiência do Mercosul, acrescenta, vem sendo menos custosa para os trabalhadores, embora a ampliação do comércio na região também tenha sido acompanhada de redistribuição de investimentos, mudança de indústrias e alguma transferência de empregos entre países.Outra diferença importante é que não se criou, no Mercosul, uma relação de dependência tão forte quanto a do México diante dos Estados Unidos, que absorvem cerca de 80% das exportações mexicanas.Para os trabalhadores, lembra Jakobsen, a integração internacional tem sido acompanhada, também, de enfraquecimento das redes sociais de proteção. O Canadá, acrescenta o sindicalista, era um exemplo de Estado do Bem-Estar, mas não escapou de redução dos gastos sociais, diminuição do seguro-desemprego e contenção até das políticas de proteção a idosos.A Cúpula dos Povos está instalada num grande pavilhão junto do Porto Velho, fora da área protegida contra manifestantes. Três mil delegados estão inscritos, e as sessões de debate começaram nesta terça-feira.A reunião é organizada pela Aliança Social Continental, formada por um conjunto de redes nacionais de organizações não-governamentais, incluídos sindicatos e entidades de pesquisa.A Rede Brasileira pela Integração dos Povos tem 12 participantes ativos e é dirigida por um coletivo de 6 organizações, entre as quais se incluem a CUT e o Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. A rede brasileira é uma das seis integrantes da coordenação geral.Os coordenadores da Cúpula dos Povos propuseram aos organizadores da Cúpula das Américas um encontro para troca de idéias e discussão dos temas principais da integração continental.Seria uma forma de evitar o que tem acontecido habitualmente, diz o brasileiro Renato Martins, pesquisador de Ciência Política e um dos coordenadores da cúpula não-oficial.As organizações não-governamentais, segundo ele, normalmente entregam aos representantes de governos documentos que acabam sendo jogados fora.Um encontro seria mais produtivo, avalia Martins, mas a proposta foi recusada pelos organizadores da cúpula oficial.O barulho das manifestações, nos próximos dias, poderá abafar as discussões e propostas da Cúpula dos Povos. O estrelismo também. De alguma forma, o folclórico José Bové, o camponês francês destruidor de lanchonetes americanas e plantações de transgênicos, acabou sendo convidado.O governo da Província da Quebec também ensaiou tomar carona, politicamente, na Cúpula dos Povos, para promover sua proposta de soberania.O presidente da Federação do Trabalho de Quebec, Henri Massé, advertiu que ficaria "muito bravo" se as autoridades usassem o evento para promover a causa da independência de Quebec.O primeiro-ministro da Província, Bernard Landry, que deu as boas-vindas aos participantes da cúpula paralela, parece haver desistido de ir além das demonstrações de hospitalidade e solidariedade.

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