Alternativa árabe

Alternativa árabe

Oriente Médio rompe estereótipos e mostra que é capaz de oferecer saídas para a região, prescindindo dos EUA

Parag Khanna, International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Uma reunião da Liga Árabe costuma suscitar os piores estereótipos sobre o Oriente Médio: protocolo disfuncional, exortações vazias denunciando vilezas do Ocidente e animosidades disparatadas.

No entanto, a cúpula deste fim de semana em Trípoli, na Líbia, poderá marcar uma virada. A Liga Árabe está ficando cada vez mais séria e confiável, trazendo à tona o tipo de propostas que os EUA deveriam apoiar, em vez de bloquear.

As persistentes percepções equivocadas do Ocidente sobre os árabes sustentam os parâmetros falsos que usamos para analisar a região. Os americanos continuam excessivamente influenciados pelo trauma pós-11 de Setembro e o amplamente divulgado "Relatório sobre Desenvolvimento Humano Árabe", preparado pelo Programa de Desenvolvimento das ONU, que reforçou imagens de corrupção e subdesenvolvimento da região.

O mundo árabe, porém, é também rico e cheio de recursos, abençoado com petróleo e estrategicamente localizado na intersecção de Europa, África e Ásia. Ele não será "deixado para trás" pela globalização. Ao contrário, a tendência mais significativa e negligenciada da última década foi uma globalização positiva dentro do mundo árabe em razão de investimentos transacionais e de meios de comunicação via satélite, como a Al-Jazira e a Al-Arabiya.

Diferentemente dos booms do petróleo anteriores, os anos posteriores ao 11 de Setembro viram os árabes guardando, mais que nunca, seu próprio dinheiro, promovendo a criação de empregos, do Marrocos à Síria, e revelando fenômenos econômicos, como Dubai.

Nunca tantos jovens árabes participaram de intercâmbios estudantis, conferências de ativistas e blogs da internet. O mundo árabe pode arcar com os custos de se modernizar e mostrou sinais promissores disso.

Estratégia. Também não conseguimos compreender a realidade estratégica árabe. Se os árabes deveriam se alinhar aos EUA e a Israel para conter as ambições hegemônicas do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, então por que a Síria abrigou um "conselho de guerra" com Irã e Hezbollah, em Damasco, no mês passado? E por que o Catar está explorando campos de gás junto com o Irã?

O fato é que a maioria dos árabes prefere um modus vivendi com o Irã - assim como muitos colaboram tacitamente com Israel em questões de interesse mútuo. Em vez de verem a si mesmos prensados entre Israel e Irã, o objetivo mais comum dos árabes parece ser limitar a influência americana excessiva em sua região.

Os americanos acreditam amplamente que o mundo árabe ficou exultante com a vitória do presidente Barack Obama, em 2007. É verdade, mas não porque os árabes queriam uma liderança americana forte em sua região. Eles preferem cuidar de seus próprios negócios com o mínimo de interferência dos EUA. Do entendimento com o Hamas à negociação com o Irã, os Estados árabes estão tomando os assuntos em suas próprias mãos. E isso é bom.

Durante os preparativos para a cúpula da Liga Árabe deste fim de semana, a organização assinalou a líderes palestinos que apoiam conversações diretas com Israel e está agindo para criar uma força de paz árabe que estabilize Gaza e reintegre o Hamas ao governo palestino. Lidar com as divisões palestinas dessa maneira cumpre os objetivos dos EUA de submeter o Hamas de maneira muito mais eficiente do que qualquer esforço americano feito até agora.

A noção de que o governo Obama precisa "se engajar e liderar" o processo de paz é descartada até mesmo por amigos de longa data dos EUA, como o ex-embaixador saudita em Washington, príncipe Turki al-Faisal, que disse recentemente: "Não queremos nenhum novo plano americano de Obama. Apenas nos ajudem a implementar os já existentes."

O mesmo se aplica à maneira de tratar o Irã. Cada vez mais, nações menores do Golfo Pérsico defendem a criação de uma conferência de segurança do Golfo em que tanto Irã como Israel seriam incluídos - um passo que poderia melhorar significativamente a confiança regional ao trazer mais transparência às atividades desses países. No entanto, em nome de preservar a "frente unida" contra o Irã, os EUA bloqueiam a ideia.

Um Parlamento Árabe e um Conselho de Segurança Árabe estão presentes também na agenda de Trípoli, assim como ideias para financiar mais escolas seculares. Se os EUA querem ver menos teocratas e mais tecnocratas no mundo árabe, eles deveriam elogiar a liderança de Líbia e Líbano, Marrocos e Catar. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É BOLSISTA SÊNIOR DA NEW AMERICA FOUNDATION E AUTOR DE "THE SECOND WORLD: HOW EMERGING POWERS ARE REDEFINING GLOBAL COMPETITION AT THE 21ST CENTURY"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.