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Altiplano dá as costas a Evo

Quando Evo Morales lançou-se à presidência da Bolívia, El Alto o aplaudiu. Foi de lá, no altiplano andino, a 4 mil metros de altitude, que surgiu seu maior patrimônio eleitoral. Também partiu da cidade de quase um milhão de habitantes, com um comércio febril, fortes raízes indígenas e pavio político curto, a pólvora popular que detonara dois presidentes, Gonzalo Sánchez de Lozada, em 2003, e Carlos Mesa, dois anos depois.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h05

No domingo passado, El Alto roncou de novo. Desta vez a turba manifestou-se nas urnas e sua mensagem não foi nada simpática ao governo Evo. Na corrida para a prefeitura, ganhou Soledad Chapetón, que soterrou o ex-prefeito Edgar Patana, do partido Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo. Soledad obteve 55% dos votos e Patana, 32%.

Com sangue aimará e um carisma incomum, Soledad, de 34 anos, até lembra o jovem Evo, um ex-sindicalista que se alçou ao palácio nos ombros dos plantadores de coca bolivianos. Mas lá termina a semelhança. Soledad - La Sole, para os altenhos - é preparada, formada em pedagogia, com discurso moderado, fornido pelo partido centrista Unidade Nacional do empresário Doria Medina, opositor ferrenho de Evo.

Assim como Evo, Soledad é ascendente direta de índios aimarás e orgulha-se de suas tradições, mas rejeita brandir seu DNA como bandeira partidária muito menos fantasiar-se com o manto de sacerdote da "pachamama" (mãe terra), como fez Evo em 2006. Como a grande maioria dos bolivianos, é filha da mistura de raças, idiomas e culturas e vê seu diferencial nesse caldeirão social e não no velho "eles contra nós". Também atraiu votos dos altenhos enojados com a malversação e a desgovernança, associadas ao ex-prefeito Patana.

Soledad é o emblema perfeito da nova classe aspirante andina, a "burguesia chola", que representa um entre sete bolivianos, ascendeu na maré de fartura da era Evo e agora se insurge contra ele.

Até outro dia, a lógica política de Evo era impecável. Durante uma década, governou com uma pauta exótica, mistura de culto ao indigenismo, transferências de renda para os mais pobres, um certo melindre fiscal (afinal, Bolívia já fora campeã latina de hiperinflação) e bonança de matérias-primas, como o gás natural e minérios.

Nova Carta. Evo remou na fartura global, triplicando o PIB nacional, hoje em US$30 bilhões. Criou empregos e estimulou o consumo, uma dobradinha que lhe garantiu a aprovação invejável como também a gula de poder. Em 2006, comandou sua maioria parlamentar para editar a dedo uma nova Constituição, graças à expulsão da oposição da Assembleia Constituinte, alojada num quartel militar.

Com a nova Carta, Evo convenceu a Suprema Corte a zerar seu mandato, dando-lhe o direito de concorrer a uma terceira eleição consecutiva e ficar no poder até 2019.

Com esse baralho à bolivariana, os cofres abastados e a maioria indigenista garantida, o "moralismo" parecia intocável. Evo venceu com folga a reeleição no ano passado, também na localidade de El Alto.

Mas a cabeça do eleitor não tem dono. Fora Soledad, as urnas de março descortinaram a força da Bolívia metropolitana, com vitórias oposicionistas nas cidades mais importantes: Cochabamba, La Paz, Santa Cruz e Tarija. O novo prefeito de La Paz, Félix Patzi, também de sangue aimará, foi de ministro de Educação de Evo a estrela da oposição.

Dos sete governadores aliados a Evo, restam quatro. Dois palácios estaduais ainda dependem do segundo turno. Destaque para Beni, onde o favorito é um candidato zebra, que entrou no páreo de última hora quando o oposicionista titular foi excluído em manobra suspeita da Justiça eleitoral.

Ainda não é a contrarrevolução, pois Evo ainda controla a maioria do Congresso e dos municípios. "Mas pode ser um ponto de inflexão. O boliviano quer a descentralização do poder", diz o economista boliviano Roberto Laserna, da Fundação Milenio. O sacerdote da "pachamama" que se cuide.

É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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