Alto escalão sírio começa a se afastar de Assad

Presidente sírio enfrenta redução de apoio da elite, divisões entre autoridades e distanciamento de antigos partidários

Anthony Shadid, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Enquanto a Síria prossegue no seu ataque mais implacável a uma sublevação que já dura cinco meses, começam a surgir rachaduras numa liderança cerrada que até agora conseguiu mobilizar sua base de apoio e manter uma frente unida, segundo autoridades, dissidentes e analistas.

 

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Embora não haja indícios de um colapso iminente, a redução do apoio da elite empresarial em Damasco, divisões entre autoridades de alto escalão e as medidas de antigos partidários para se distanciar da liderança surgiram num momento em que a Síria enfrenta também seu maior isolamento em mais de quatro décadas de regime da família Assad.

"Eles estão começando a se dividir e algumas pessoas no governo estão ficando realmente frustradas com Assad e seu círculo de segurança", disse um funcionário do governo Barack Obama em Washington. "É quase como observar um casamento disfuncional." As alterações na constelação de poder em Damasco sugerem perigos para os próximos meses. Autoridades americanas e europeias reconhecem que têm ferramentas limitadas para influenciar nos acontecimento na Síria, e uma oposição profundamente dividida não conseguiu proporcionar, até agora, uma alternativa à liderança do presidente Bashar Assad.

Ativistas na Síria advertem que a repressão do governo também pode impelir manifestantes geralmente pacíficos à violência. "Neste momento estamos emperrados", disse Louay Hussein, uma destacada figura da oposição que manteve conversações com autoridades do governo na tentativa de abrir o sistema político. "O governo conta com seus militares e pode levar muito tempo até ele esgotar todos seus recursos." Uma autoridade diplomática americana disse que parecia cada vez menos provável que Assad permanecesse no poder. Por conta disso, comentou, os EUA começaram a fazer planos para uma era pós-Assad, preocupados com o caos que muitos especialistas acham que se instalará se ele cair. O governo Obama, disse ele, não descarta a possibilidade de uma guerra civil. "Vai ser uma confusão", disse a autoridade, falando sob a condição de anonimato. Autoridades em Washington disseram que o presidente Obama pode se declarar em breve a favor da saída de Assad.

Em Damasco, nesta semana, 41 ex-autoridades do governo e baathistas tomaram uma iniciativa que seria impensável para os seguidores do partido não faz muito tempo: anunciaram um esforço de transição política. Liderado por Mohammed Salman, um ex-ministro da Informação com ligações profundas com líderes próximos a Assad, o grupo pediu o fim da repressão, da mobilização militar, e da campanha incansável de prisões. Algumas figuras da oposição menosprezaram a iniciativa como uma tentativa de "branquear sua página negra do passado". Mas, para outras, ela representou uma fissura notável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA DO "NEW YORK TIMES"

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