Alunos temiam uns aos outros, diz estudante que esteve em 'A Onda'

Mark Hancock estava na classe que participou da simulação sobre a Alemanha nazista que saiu do controle em escola nos EUA

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

31 Maio 2014 | 16h00

A experiência de viver um regime nazi-fascista dentro de uma sala de aula pode parecer apenas roteiro de filme hollywoodiano, mas foi realidade em 1967 em uma escola de Palo Alto, Califórnia. Os alunos, que tinham entre 14 e 15 anos, estudavam as condições mundiais que levaram à Segunda Guerra Mundial, quando um deles perguntou o que levou as pessoas a apoiarem o regime da Alemanha nazista.

O professor de história Ron Jones decidiu então fazer um experimento de simulação. Um dos alunos de Jones na época, Mark Hancock, lembra que tudo começou com a formação do grupo "A Onda", movimento que teria características similares ao regime nazista, mas saiu do controle quando os alunos começaram a repreender quem pensasse diferente.

A experiência começou com os alunos sendo obrigados a se sentarem em fileiras, de forma ordenada, para entenderem a importância da disciplina. Depois passaram a usar um uniforme exclusivo do grupo e criaram um slogan. Jones já não permitia questionamentos em sala de aula e um dos alunos se tornou seu "segurança particular". "A Onda" começou a sair do controle.

"Tudo começou como um jogo divertido, mas a coisa saiu do controle, ele (Jones) ficou cada vez mais parecido com um ditador e quando disse que aquilo não era um jogo, que era real, aí começou a ficar assustador. Tínhamos uma polícia secreta então não podíamos fazer perguntas e os alunos começaram a ter medo uns dos outros", contou Hancock ao Estado.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Isso pode acontecer em qualquer lugar. A lição mais importante que aprendi é que você precisa ter cuidado com quem segue porque nunca sabe para onde vão guiar você
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313

O professor percebeu que precisava encerrar o experimento, que chamava a atenção de outros alunos do colégio que deixavam de ir às outras aulas para participar do grupo. "Uma noite, outros alunos invadiram a classe dele (Jones) e espalharam pôsteres contra "A Onda". No dia seguinte, ele descobriu que alguém tinha invadido sua sala e percebeu que estava saindo do controle", disse Hancock.

Para encerrar o movimento, Jones anunciou que o movimento fazia parte de um programa nacional para escolher jovens que pudessem mudar o rumo do país, que outras escolas estavam participando e no dia seguinte haveria uma audiência no auditório do colégio para anunciar os jovens escolhidos.

Hancock lembra da cena e do que sentiu naquele momento. "Dentro da sala havia umas 200 pessoas. Todos estavam sentados então ele (professor) desligou as luzes e ligou a televisão. Nesse momento, passaram 20, 30, 45 segundos e nada acontecia. Aí comecei a olhar pela sala e não vi mais Jones. Eu entrei em pânico, fiquei assustado e decidi que precisava ir embora dali porque não me sentia seguro. Depois de 3 ou 4 minutos, ele chegou e disse que não tinha um líder, que estávamos indo por um caminho já visto, ligou a TV e passou o filme da ascensão do Terceiro Reich."

A experiência de 1967 foi transformada em filme, documentário e livro. Até hoje, Hancock vai em escolas contar o que viveu e como isso deve servir de exemplo para evitar que regimes nazi-fascistas voltem a existir. "Isso pode acontecer em qualquer lugar. A lição mais importante que aprendi é que você precisa ter cuidado com quem segue porque nunca sabe para onde vão guiar você. Quando ele (Jones) começou a experiência, nós (alunos) pensamos que conhecíamos ele e podíamos confiar, mas não tínhamos ideia de para onde ele nos levaria."

Para o antigo aluno, a experiência saiu do controle porque as pessoas gostam de ter o controle e quem está sendo manipulado pensa ter conseguido respostas e passa a recriminar os que pensam diferente. "As pessoas abrem mão da própria felicidade pela ordem e isso é assustador. E as pessoas que tiram essa liberdade não são transparentes, não permitem o diferente, não permitem nem ao menos questionamentos. O desejo pela ordem é sedutor."

Mais conteúdo sobre:
EUA Alemanha nazista A Onda

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.