Juan Barreto / AFP
Juan Barreto / AFP

Alvos das balas chavistas explicam fim de protestos

Manifestantes acusam oposição de priorizar interesses políticos em uma trégua tácita com Maduro

Juan Francisco Alonso ESPECIAL PARA O ‘ESTADO’ / CARACAS, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2017 | 05h00

Depois de quatro meses de marchas com milhares de pessoas, bloqueios de ruas e centenas de distúrbios que deixaram 128 mortos, mais de 2 mil feridos e cerca de 5 mil presos, já faz quatro semanas que se pode circular pelas ruas de Caracas sem o risco de se deparar com uma barricada de escombros e lixo, ou com batalhas entre encapuzados e policiais ou militares. 

O comércio voltou aos seus horários habituais, famílias passeiam de novo pelos parques e praças, os jovens novamente se encontram nas quadras para praticar esporte ou se reúnem em casa para ver filmes ou tomar cerveja, incluindo aqueles que, desde abril, estiveram todos os dias nas ruas participando dos confrontos, cujas imagens deram a volta ao mundo. 

“Foi difícil voltar a estudar e pensar nas provas, porque continuo tendo a sensação de querer estar naquele ‘porre’ (o problema na Venezuela). É difícil lidar com isso, pois sempre queremos mais. Deve ser a adrenalina, mas agora tenho de retomar a rotina e pensar que isso não aconteceu, pois sinto que foram quatro meses perdidos”, comentou “El Portu”, um rapaz de 22 anos, estudante do quarto semestre de jornalismo na Universidade Católica Andrés Bello. Há inúmeras imagens dele em batalhas contra as equipes antimotim da polícia e da Guarda Nacional Bolivariana. 

O Estado conversou com ele e com “El Catire”, outro dos chamados “libertadores”, como foram batizados os jovens que desde abril participaram de duros e desiguais confrontos com as forças de segurança venezuelanas. A conversa foi na casa de “El Catire”, localizada em um tranquilo bairro de classe média alta no sudeste de Caracas. Ambos mostraram-se dispostos a conversar sobre sua “dupla identidade”, mas com a condição de que seus nomes não fossem publicados, por receio de serem presos pelo temido Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), que busca jovens como eles. 

Desalento. “El Portu” admite estar decepcionado e até indignado, pois “muitos acreditavam que ocorreria uma mudança política, pela qual estavam lutando”. Ele não perdeu o ano na universidade porque o final das aulas foi antecipado e as provas foram substituídas por pesquisas para fazer em casa. 

“El Catire”, um rapaz de 23 anos, que pelos olhos claros e cabelos loiros tem mais o porte de um modelo do que de um rebelde, assegurou não estar surpreso com o que aconteceu. “Eu não tinha expectativas, pois sabia que não se conseguiria nada, mesmo que os protestos tivessem uma participação ampla e diversificada, pois já se tentou antes, em 2014, e não adiantou.” 

Segundo ele, o país só mudará se houver algo além de passeatas, bloqueios e confrontos com as forças de segurança. “É preciso alguma coisa maior, mais forte”, disse, para logo em seguida afirmar: “Voltei às ruas por meus companheiros, pelos amigos que iam, por essa fraternidade que ficou dos protestos de três anos antes”. 

“El Catire”, que é bartender em discotecas e eventos privados, mas também ajuda a mãe confeiteira a distribuir seus doces nos restaurantes da capital venezuelana, agradece até certo ponto o retorno à calma. “Se havia o bloqueio de ruas, não podíamos distribuir nossos doces nem comprar os produtos necessários para fazê-los e, além disso, as pessoas não iam aos restaurantes e recebíamos menos encomendas.” Ele abandonou os estudos de gastronomia. 

Demagogia. O presidente Nicolás Maduro atribuiu a si o sucesso em sufocar os protestos. “A vitória do domingo, dia 30 de julho, trouxe a paz com a Constituinte”, disse ele, semanas atrás, referindo-se à eleição e instalação da Assembleia Constituinte proposta por ele mesmo. O chavista ameaçou ainda aprovar leis para castigar com rigor os que participaram da recente onda de protestos. Para ele, as medidas foram responsáveis pela volta da calma. 

Os jovens, porém, apontam na direção da Mesa da Unidade Democrática (MUD). “Eles têm seus negócios com o governo e por esse motivo não fazem o que deveriam fazer. Agora todos estão concentrados nas eleições regionais. Certamente é preciso ir às urnas, mas não se deveria ter dado menos importância aos protestos, era necessário manter a pressão das ruas”, disse “El Portu”. 

A MUD nega ter relaxado os protestos para concentrar-se na seleção dos candidatos a governadores e na próxima campanha eleitoral. A eleição de 23 governadores e 100 deputados regionais está prevista para outubro. “Os protestos começaram a diminuir antes das eleições fraudulentas da Constituinte”, afirmou o ex-deputado e dirigente opositor Juan Carlos Caldera. “O anúncio de que as eleições regionais seriam neste ano foi depois de 30 de julho. Depois dessa data, foram convocadas duas atividades sem grande participação, simplesmente porque o espírito de luta e resistência das pessoas mudou, assim que se concretizou a fraude da Constituinte.” 

Para Caldera, tanto a duração dos protestos como a forte repressão contra eles terminou por afetar a situação. Ele acredita que as ruas voltarão a atuar com entusiasmo em razão do agravamento da crise econômica e garantiu que as eleições são uma oportunidade. 

“Concluiu-se uma etapa, mas acredito que os protestos nas ruas serão retomados mais adiante e as eleições regionais são uma oportunidade para nos reorganizarmos e apresentarmos um novo caminho para que as pessoas superem o medo e a desmobilização. Manifestações de rua e eleições regionais não são fatores excludentes, só é preciso redirecionar os protestos e convencer as pessoas de que os objetivos propostos são úteis, que elas voltem a participar.” 

Crítica. O ex-secretário-geral da MUD, Jesús Torrealba, acredita que o atual desânimo e os questionamentos à oposição são justificados. “Os principais líderes comportam-se como meros ativistas ou candidatos”, afirma. “Há um mês, falava-se de rebeldia, de greve, de sublevação e ‘hora zero’, mas, de repente, disseram para irmos às eleições regionais, sem qualquer mensagem ou explicação que desse a entender que as principais vitórias que obtivemos foram no campo eleitoral, o que de sua parte causou perplexidade, confusão e mal-estar.” As convocações eram da MUD e de líderes estudantis. 

Apesar da inquietação e da desilusão – durante os quatro meses de protestos, os agentes uniformizados fraturaram seu braço com uma bomba lacrimogênea, com uma arma perfuraram seu pé até o calcanhar e em várias ocasiões dispararam contra ele com balas de borracha, marcando-lhe o peito, os braços e as costas –, “El Portu” garante que iria, se amanhã fosse convocado, para uma manifestação. 

Segundo ele, se a manifestação tivesse como destino o centro de Caracas, terreno vedado para a oposição, pegaria no seu armário a máscara contra gás, o colete à prova de balas e o escudo de plástico. A fratura no braço foi o única razão para faltar às aulas. 

“Claro que voltaria a sair, mesmo sabendo que existe a possibilidade de regressar ferido ou não voltar, pois acreditamos que este país pode mudar para melhor, que podemos acabar com isso para ter mais segurança e para que as pessoas não continuem a morrer por falta de medicamentos e comida, enquanto há políticos que enriquecem”, concluiu. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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