AFP / Robert SULLIVAN
AFP / Robert SULLIVAN

Alvos de Noriega temem que morte freie Justiça

Parentes de vítimas tentam evitar que morte de ex-ditador do Panamá interrompa investigações sobre casos de assassinatos e desaparecimentos

O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 20h32

CIDADE DO PANAMÁ - A morte do ex-ditador panamenho Manuel Antonio Noriega causou comoção entre os parentes dos desaparecidos e assassinados do período militar. Famílias de vítimas acreditam que, agora, será mais difícil obter justiça para seus casos. Noriega morreu na segunda-feira, aos 83 anos, no Hospital Santo Tomás, na capital panamenha, após ter sido operado de um tumor cerebral em março.

O ex-ditador cumpria três condenações, de 20 anos cada, pelo desaparecimento de opositores durante seu regime (1983-1989). Também era acusado de outros crimes ocorridos enquanto comandava a Inteligência panamenha e era braço direito do líder nacionalista Omar Torrijos, que chegou ao poder em um golpe militar em 1968.

“Com a morte de Noriega será mais difícil saber a verdade sobre tudo o que ocorreu”, disse Martiza Maestre, presidente do comitê de vítimas, desaparecidos e assassinados durante a ditadura militar (1968-1989). “Ele nunca falou, mas o grupo que esteve com ele também mantém esse silêncio.”

Noriega cumpria condenações pelo desaparecimento e morte, em 1985, do opositor Hugo Spadafora; do militar Moisés Giroldi, morto após se rebelar contra ele em 1989; e pelo chamado massacre de Albrook, no qual vários militares morreram depois de se rebelarem, também em 1989.

Junto a isso, a Comissão da Verdade, criada em 2002, documentou 116 casos de assassinatos e desaparecimentos durante o regime militar, quando Noriega era o chefe da espionagem e encarregado de combater a insurgência após o golpe de 1968, assim como em seu governo. “Agora, Noriega enfrenta a justiça divina. Leva seus segredos para o caixão, mas muitos conhecem a verdade de suas atrocidades e devem falar”, tuitou Alida Spadafora, irmã de Hugo Spadafora, que foi decapitado.

Noriega sempre negou participação nos crimes. Mas em 2015 pediu “perdão” a “qualquer pessoa que se sinta ofendida, afetada, prejudicada ou humilhada por minhas ações”.

Noriega assumiu o comando do Panamá em 1983, dois anos após a morte de Torrijos em um acidente de avião.

Se algo caracterizou Noriega foi sua facilidade de lidar com os diferentes serviços secretos de países antagônicos, em plena Guerra Fria. Ele chegou a estar na folha de pagamento da CIA, mas de aliado fiel dos Estados Unidos passou à posição de inimigo vinculado ao narcotráfico.

O ex-presidente americano George H. Bush (1989-1992), que foi diretor da CIA, ordenou a invasão do Panamá em 20 de dezembro de 1989 para capturar Noriega, em uma operação que oficialmente deixou 500 mortos. Noriega se entregou em 3 de janeiro 1990. Foi condenado nos EUA a 40 anos de prisão por narcotráfico e lavagem de dinheiro, mas cumpriu menos da metade da pena por bom comportamento.

Em 2010, foi extraditado para a França por lavagem de dinheiro e um ano depois, extraditado ao Panamá, onde foi condenado pelo desaparecimento e assassinato de opositores. 

Jovem pobre, mas brilhante, ele não teve muitas oportunidades até que um meio-irmão o ajudou a entrar nas Forças Armadas. Com a sabedoria das ruas e sangue frio, Noriega revelou ter um talento precoce para operações de guerra psicológica.

Colaborador pago da CIA desde o início dos anos 70, Noriega inicialmente trabalhou de perto com Washington, permitindo que forças americanas instalassem postos de escuta no Panamá e usassem o país para direcionar ajuda às forças pró-EUA em El Salvador e na Nicarágua. Usando essas informações, Noriega manipulava tanto os panamenhos quanto seus chefes americanos em benefício próprio. / AFP e EFE

 

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