Amanheceu em Islamabad

Democracia, Justiça autônoma e imprensa livre, aliadas a jovens engajados politicamente, ocasionam um despertar no Paquistão

O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2013 | 02h04

Enquanto o Paquistão se preparava para votar, nuvens densas se aproximavam no horizonte. O que deveria ser um momento de comemorações para um país que experimenta sua primeira transição democrática em 63 anos tornou-se algo estranho, sombrio e de reflexão. Os políticos e suas famílias enfrentavam a ira constante do Taleban paquistanês, porque os terroristas costumam manter sua promessa de derramar abertamente o sangue dos que são contrários a eles. Em muitas partes do país, o fornecimento de eletricidade é escasso, os cofres públicos estão praticamente sem recursos e o governo - ao contrário do Taleban - é incapaz de manter a promessa de impedir ataques terroristas e de garantir a segurança. Apesar de tudo, existem importantes razões para se ter esperança. As cinco maiores são:

1. Uma democracia mais arrojada. Essa primeira transição da história para um governo eleito é um fato extraordinário, em parte porque os paquistaneses conhecem infelizmente muito bem as intervenções militares que precedem a transferência do poder. Mas é importante também porque a recente experiência com a democracia foi extremamente desagradável. Agora existe a confiança e a esperança de que nem todos os governos serão tão irresponsáveis quanto o último. Uma nova e frágil democracia está prestes a dar passos de gigante.

2. Juízes militantes. Quando o então presidente Pervez Musharraf tentou demiti-lo, em 2007, o presidente da Suprema Corte, Iftikhar Mohamed Chaudhry, recusou-se a deixar o cargo calado. Em vez de se resignar, revidou e contou com o apoio de advogados de todo o país. Em 2009, depois de uma emergência nacional, protestos e eleições nacionais, o presidente da Suprema Corte foi reintegrado. Desde então, revitalizou o Judiciário, tratando de casos explicitamente políticos. Os juízes encontraram uma maneira de desafiar a autoridade executiva mudando a Constituição paquistanesa, em lugar de infringi-la. O sinal mais claro do amadurecimento do judiciário é o tratamento que dispensou a Musharraf: o ex-ditador foi preso em abril na casa que construiu para quando se aposentasse. Mais uma vez, Chaudhry mostrou ao Paquistão que os militares não estão acima da lei.

3. Imprensa mais livre. Apesar das ameaças de violência por parte dos insurgentes, a imprensa continua erguendo um espelho sincero e brutal diante dos paquistaneses poderosos - vistam eles uniformes, trajes religiosos ou ternos e roupas tradicionais de políticos e empresários. Evidentemente, há muito ainda que melhorar. Na quinta-feira, as principais redes exibiram vídeos sem interrupção mostrando as pessoas se atirando do edifício em chamas para encontrar a morte. Mas essa fome de ratings e de furos também provocou uma série de incríveis atos de coragem jornalística, que ajudaram a sustentar a situação da mídia como guardiã da esperança num discurso público paquistanês mais livre e pluralista.

4. A explosão da juventude. Mais de 100 milhões dos 170 milhões de paquistaneses têm menos de 25 anos - situação que faz Islamabad ser considerada uma "bomba-relógio". E essa eleição tem muito a ver com os jovens. Imran Khan, ídolo paquistanês que ganhou a Taça Mundial de críquete em 1992, tornou-se ainda mais querido ao levantar dinheiro para a construção do primeiro hospital do câncer do Paquistão, em meados dos anos 90. Desde então, a retórica de Khan não se modificou. É crua, simplista e poderosa: ele quer o fim do clientelismo e da corrupção. Khan não ganhou as eleições, mas é o homem que serviu de gatilho para toda uma geração do Paquistão se engajar na política.

5. Degelo indiano. Desde os ataques de Mumbai, em novembro de 2008, tem havido um endurecimento previsível da opinião pública na Índia a respeito do que o Paquistão representa: instabilidade e violência. Mas no Paquistão a Índia já não representa o maior vilão. Talvez por uma nova preocupação em relação aos Estados Unidos ou em razão das crises internas. Ou pelo fato de a elite do Paquistão ter decidido priorizar o comércio e a prosperidade regional em lugar das disputas que nenhum dos dois países poderia ganhar. As coisas não são maravilhosas no Paquistão, mas estão melhores do que se poderia prever. Após uma eleição histórica e sangrenta, vale a pena ter isso em mente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Análise

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