Amantes vs. corrupção

Caso chinês mostra que políticos deveriam ter mais cuidado

É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN , THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS L., FRIEDMAN , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2013 | 02h06

Com bastante frequência você lê artigos em jornais tão esclarecedores que levam a pensar: "creio que, se ler essa matéria daqui a cinco anos direi 'devíamos prever que isso ocorreria. Essa história foi um sinal de advertência'".

O tipo de matéria a que me refiro foi publicada no The Washington Post dia 25, sobre como amantes desprezadas de autoridades corruptas do governo chinês se tornam as mais importantes delatoras do país - usando a internet para expor as extravagâncias de funcionários do alto escalão. O jornal detalha o caso de uma jovem de 26 anos chamada Ji Yingman que estava noiva de Fan Yue, vice-diretor do Departamento dos Arquivos do Estado - e descobriu que ele era casado e tinha um filho.

Para se vingar, Ji postou centenas de fotos online que ofereceram uma rara visão da vida de uma autoridade do governo central chinês que aparentemente mostrava-se muito pródigo com sua amante, tendo lhe oferecido uma infinidade de presentes caríssimos.

Na primeira vez que foram às compras, o casal entrou na loja Prada e ele pagou US$ 10 mil na compra de uma saia, um lenço de pescoço e uma carteira. Um mês depois de se conhecerem, Fan alugou um apartamento para eles por US$ 1,5 mil mensais e gastou mais de US$ 16 mil em roupas de cama, utensílios domésticos, um computador Apple e um laptop. Mais tarde ele comprou para ela um Audi A5, que nos EUA custa cerca de US$ 40 mil. "Ele colocava dinheiro em minha bolsa todos os dias", afirmou a jovem numa carta dirigida ao Partido Comunista em que se queixou do comportamento de Fan.

E melhor. O jornal informou ainda que "um conhecido blogueiro chinês" que postou as fotos e vídeos de Ji no seu website disse ter conversado com Fan no mês passado. E que Fan lhe informou que não havia gasto tanto dinheiro como Ji tinha afirmado, que foi menos de US$ 1,7 milhão, mas mais de US$ 500. "Essa mulher não é digna. É muito gananciosa", teria dito Fan ao blogueiro Zhu Ruifeng.

Ah, entendo. Menos de US$ 1,7 milhão. Bom saber! Fan é um funcionário dos arquivos do Estado. Que tipo de atividade ilícita estaria exercendo nas salas do arquivo para ganhar tanto dinheiro? Em qualquer governo existe corrupção. Mas a da China é em escala industrial. No ano passado, meu colega David Barboza mostrou como a mãe, o filho, a filha, o irmão mais novo, a mulher e a cunhada do então primeiro-ministro Wen Jiabao acumularam, no conjunto, um patrimônio de US$ 2,7 bilhões. Mas quando vemos quanto dinheiro um vice-diretor de um departamento de arquivos conseguia acumular - e o quão descaradamente gastava - começamos a pensar e se preocupar.

Quando visitei a China em setembro, ouvi um novo lema dos empresários chineses com os quais encontrei: "ganhe seu dinheiro e desapareça". Mais do que nunca, percebi que existe uma falta de confiança no modelo econômico chinês. Esperamos que a China consiga realizar uma transição estável do comunismo de partido único para um sistema multipartidário, mais consensual - e uma diversificação estável da sua economia estatal comandada pelo alto nível de exportações e os baixos salários - como Coreia do Sul, Taiwan, Indonésia e Singapura fizeram.

O mundo não pode se permitir uma transição caótica na China. Com os EUA num crescimento lento, a Europa mergulhada na estagnação e o mundo árabe implodindo, a China é o motor econômico vital para a economia global. Se o crescimento e as taxas de emprego em queda se somarem à insatisfação crescente com a corrupção das suas autoridades, não teremos uma transição estável na China. E se um sexto da humanidade tiver uma transição política e econômica instável e incerta, isso abalará o mundo.

Seria excelente se jornalistas, blogueiros, cidadãos e amantes com acesso à internet pudessem expor a corrupção de maneira a ajudar essa transição necessária e possível. Mas esses atores da sociedade civil só terão sucesso se encontrarem aliados no Partido Comunista, se derem força para os quadros do partido que compreendem que a corrupção descontrolada é um risco para a estabilidade, para o futuro do seu partido.

A história de Ji e Fan é muito divertida. Mas se é apenas a ponta do iceberg da corrupção que desestabiliza a China, não seria motivo para rir. O bom ou mau comportamento das autoridades chinesas não só irá afetar o a moeda, as nossas taxas de juro e até a qualidade do ar no EUA - como será o maior problema do país fora o seu próprio governo. Há razões para preocupação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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