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Gilles Lapouge
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Amargo remédio da austeridade

O governo de Atenas cai e Bruxelas estremece. Berlim também. Por fim a Europa inteira, pois o que está em jogo na Grécia não é a sobrevivência da União Europeia como anunciam enfaticamente alguns analistas, mas a linha seguida pela Europa, ou seja, o recurso cruel à austeridade, imposta desde o início da grande crise dos pagamentos que provocou os primeiros incêndios exatamente na Grécia.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2014 | 02h03

O país escapou da bancarrota há alguns anos graças aos esforços da União Europeia e de Angela Merkel. Mas, para isso, ela teve de beber a terrível poção recomendada por seus médicos, ou seja, uma austeridade que consumiu as últimas gotas de sangue do seu corpo febril.

O regime de rigor foi aplicado em Atenas pelos governos de coalizão de direita e esquerda. Mas, graças a essa austeridade demente, novos partidos surgiram à sombra dos grandes partidos clássicos. Dois principalmente: na extrema-direita o partido neonazista Aurora Dourada, e na extrema-esquerda o Syriza, partido de Alexis Tsipras.

Eleições legislativas serão realizadas no dia 25. E o grande favorito nessas eleições é o partido da "esquerda radical" e Tsipras. E é este homem que estraga a festa de ano-novo da Europa. Não seria um tanto exagerado? Tsipras tem realmente a intenção de retirar seu país da UE? Não parece. Na verdade, à medida que se aproxima do poder, Tsipras "coloca água no seu vinho". Hoje ele não só se abstém de falar de uma saída da UE, mas até promete que não exigirá a anulação da totalidade da dívida grega, somente de uma parte dela. Mas o choque promete ser duro.

Em Bruxelas, passado o primeiro choque, o ambiente ficou mais tranquilo. Tsipras parece ter adotado uma linguagem mais sensata e por outro lado a Europa está melhor armada do que há cinco anos para amortecer o golpe. Mas permanece o fato de que o eventual surgimento de um governo de extrema-esquerda em Atenas alarmaria a Europa inteira. O triunfo do Partido Syriza poderá contaminar outros países do continente.

Não é só a extrema-esquerda que prospera graças aos programas de austeridade, mas também os partidos de extrema-direita.

É um sintoma da crise moral na qual a Europa está prestes a perder sua alma: as diferenças são cada vez menos nítidas entre extrema direita e extrema esquerda. A desumana austeridade desejada por Merkel e a Comissão de Bruxelas pode se gabar de ter nutrido uma das piores perversões políticas: o populismo de direita e de esquerda. E a formidável guinada para a extrema-esquerda na Grécia terá a virtude de mostrar que os remédios prescritos por Bruxelas na verdade vão salvar os países europeus mais fracos, mas matando-os antecipadamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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