Ambigüidades de Bush confundem franceses

A França (tanto sua imprensa quanto seus dirigentes) já não sabe muito bem como entender o discurso-programa de George W. Bush sobre o Oriente Médio. É um discurso "duplo", uma espécie de "Dr. Jekyll (O Médico) e Mr. Hyde (O Monstro)". Uma metade é considerada excelente, e a outra metade, detestável. A metade desagradável, na opinião francesa, é a que se refere a Yasser Arafat e à urgência de afastá-lo. A metade considerada razoável, sempre na visão da França, é a aceitação de um futuro "Estado palestino".Portanto, os jornais - de acordo com a ótica que decidem adotar - apresentam atitudes diferentes: uns estão encantados com Bush, outros estão furiosos com ele. No primeiro grupo está a Radio France-Inter, cujo especialista internacional afirmou: "George Bush foi claro a respeito da paz. Israel não apenas deve voltar às fronteiras de 1967 e aceitar a criação de um Estado palestino nos territórios ocupados, mas também compartilhar a cidade de Jerusalém, uma idéia inteiramente insuportável para a direita israelense".Entre os que vêem apenas o lado negativo no discurso de Bush está Pierre Seguillon, importante editorialista de TV: "Bush pronunciou finalmente a sentença. Imperial, ele abaixou o cetro, como os imperadores romanos, para ordenar a condenação à morte. A América condena Arafat. Ariel Sharon tem carta branca para consumar sua obra, para desmantelar a Autoridade Palestina e para proceder à execução final - se não física, pelo menos política - de seu chefe".E o mesmo Pierre Seguillon fustiga as reações dos europeus em geral e da França em particular: "A comunidade internacional pode muito bem contentar-se com palavras, como é de praxe, e fingir não estar vendo o que se trama há longos meses. As palavras de Bush são sem ambigüidade: ao escolher Ariel Sharon contra Yasser Arafat, sem dúvida alguma ele não fez a paz avançar".Alguém ousaria comentar esses dois comentários? Parece-nos que este Bush, tantas vezes retratado como um "caubói" texano muito limitado, é mais hábil do que parece e até mesmo bastante "maquiavélico". Misturando duas posições teóricas incompatíveis (o afastamento de Arafat, por uma parte, e, por outra, a criação de um Estado palestino), ele conseguiu fazer o mundo inteiro "perder o norte". Provocou um "curto-circuito" em todos os sistemas de referência em vigor até agora.E a prova disso é esta: nesta terça-feira pela manhã, todos diziam o que bem entendiam: vimos até Arafat, embora condenado à morte (política) por Bush, declarar que este discurso "é uma contribuição importante para fazer avançar o processo de paz".Portanto, é preciso reconhecer o "talento" do discurso pronunciado por Bush (mas sem dúvida redigido por um cérebro forte de sua brilhante equipe de assessores). O que se poderia perceber é até mesmo o perigo contrário: poderíamos temer que este discurso seja tão mau, tão contraditório, que, no final das contas, por causa de suas ambigüidades, de seus paradoxos, contribua para obscurecer ainda mais o panorama, em vez de esclarecê-lo.

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