AP Photo/Manu Fernandez
AP Photo/Manu Fernandez

Ameaça criada por objetos comuns muda a organização urbana

Pesquisa sugere que o medo criado pelo ataque, ao minar a confiança e a unidade do público, pode causar outro dano profundo e duradouro

Amanda Taub / NYT, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2017 | 05h00

Desta vez foi Barcelona. Uma van comum foi transformada em uma arma letal e indiscriminada. Se uma coisa – mesmo algo tão onipresente como um carro – pode ser uma arma, isso aumenta a sensação de ameaça no dia a dia da vida urbana.

Anos de pesquisa descobriram que o medo pode acabar por dividir e envenenar sociedades, aumentando a resistência das pessoas contra os identificados como forasteiros, levando-as a até mesmo abandonar valores fundamentais. Esse tipo de ataque, com o uso de um dos objetos mais comuns da vida diária, pode reforçar esse efeito.

Os cientistas políticos Marc Hetherington e Elizabeth Suhai, por exemplo, descobriram que quando pessoas que são normalmente abertas e confiantes em relação a estranhos sentem que correm o risco de um ataque terrorista, tornam-se mais propensas a apoiar medidas duras e autoritárias e mais receptivas a sacrificar liberdades civis em troca de segurança que seja notada.

Para encontrar segurança, buscamos estratégias que tornam possível responder a tais questões de uma forma tranquilizadora. Depois dos ataques do 11 de Setembro, por exemplo, muitos evitavam voar. Mas carros e caminhões estão ao nosso lado.

Ao distorcer a finalidade de uma máquina banal, ataques como o de Barcelona criam a sensação de que a vida pública está matizada com um perigo incontornável. Quando qualquer coisa pode se tornar uma arma, isso vai desgastando a esperança de que os ataques terroristas sejam, de certa forma, previsíveis e controláveis.

Não é necessária qualquer capacitação especial ou recurso para conseguir uma van e dirigi-la contra uma multidão de pessoas inocentes. Tudo que é necessário é motivação. Esse medo não é meramente desagradável. Pode ter um impacto real sobre a sociedade e a política.

Os recentes ataques na Europa podem ajudar a explicar, por exemplo, porque um recente estudo da Chatham House, organização britânica de pesquisas, descobriu que mais da metade dos europeus apoia uma proibição de imigração vinda de países de maioria muçulmana.

Outra pesquisa mostra que quando as pessoas sentem estar sob ataque em razão de sua filiação a um determinado grupo, como sua religião, nacionalidade ou raça, tornam-se mais apegadas a tal identidade, mais obstinadas e com maiores suspeitas em relação a pessoas de fora. Isso pode provocar o fenômeno que os cientistas sociais chamam de “outgrouping” (grupo social com o qual o indivíduo não se identifica) – medo de estranhos e um desejo de controlá-los ou puni-los. Quando organizações terroristas miram, digamos, ocidentais, isso leva a um comportamento de exclusão.

O sentimento do “nós” contra “eles” divide a sociedade, reforçando os preconceitos e criando linhas de combate social – exatamente o tipo de política defendida por populistas de direita que se tornaram cada vez mais populares na Europa e nos EUA.

Essa pesquisa sugere que o medo criado pelo ataque, ao minar a confiança e a unidade do público, pode causar outro dano profundo e duradouro, menos visível que as mortes imediatas, mas, ainda assim, extremamente poderoso.

Seja qual for o efeito de tais ataques nas políticas do Ocidente estas já estão mudando a geografia mental da vida urbana, de forma sutil, mas inconfundível. Ao mesmo tempo em que as cidades criam mais barreiras para afastar a remota ameaça de outro ataque, elas ficam cada vez mais conscientes da ameaça representada por objetos comuns. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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