Ameaça de ataque terrorista causa apreensão no coração de Paris

Dinamite é localizada em grande loja de departamentos; grupo desconhecido exige saída de tropas do Afeganistão

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

17 de dezembro de 2008 | 00h00

As reiteradas ameaças de ataques terroristas à França tornaram-se mais palpáveis ontem, quando cinco cartuchos de dinamite foram localizados pela polícia no banheiro de uma grande loja de departamentos situada próxima da Avenida Champs-Elysées, em Paris. Os explosivos foram localizados graças a um comunicado enviado à Agência France Presse (AFP), pela manhã, no qual um grupo autodenominado Frente Revolucionária Afegã (FRA) pede a retirada das tropas francesas do Afeganistão e alerta: "Caso contrário, passaremos à ação sem adverti-los." O ato de intimidação foi descoberto entre 8 e 9 horas de ontem, quando a carta chegou à AFP. Enviado de Paris, o texto dizia: "Nós somos a Frente Revolucionária Afegã. Instalamos várias bombas na loja Printemps Homme Haussmann." A carta seguia dando instruções sobre como encontrar os explosivos, dispostos na sede da rede no 9º Distrito, um dos de maior comércio de Paris. "Se vocês não fizerem alguém intervir antes de quarta-feira (hoje), as bombas explodirão." Em troca do alerta, a organização pediu que uma mensagem fosse enviada ao presidente francês, Nicolas Sarkozy: "Retire as tropas de nosso país (o Afeganistão) antes do fim de fevereiro de 2009, caso contrário passaremos à ação nas grandes lojas de capitalistas e sem adverti-los." O grupo referia-se ao contingente de 2,8 mil soldados franceses que integram a Força Internacional de Assistência e de Segurança (Fiasc), que luta sob o comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra militantes do Taleban no Afeganistão. SEM DETONADORPor volta das 11 horas, a loja foi isolada e esvaziada. Funcionários e clientes foram informados, de início, que se tratava de um exercício. Agentes da Brigada Criminal e da Seção Antiterrorismo inspecionaram o prédio, encontrando os explosivos. Minutos depois, a ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie, falou aos jornalistas: "Cinco cartuchos de dinamite relativamente antigos foram descobertos em um banheiro do 3º andar. O dispositivo não dispunha de detonador e não era operacional." Até o início da tarde de ontem, os agentes mantiveram a interdição parcial da região. "Decidi reforçar o efetivo de segurança em Paris e nas grandes cidades do interior", disse a ministra. Em Estrasburgo, onde participava de uma solenidade do Parlamento Europeu, Sarkozy pediu calma à população. "É preciso que nos mantenhamos prudentes. A vigilância diante do terrorismo é a única linha de conduta possível, pois, infelizmente, tudo pode acontecer", reconheceu. "Além disso, manteremos a firmeza."O desafio dos órgãos de informação do governo é buscar informações sobre a Frente Revolucionária Afegã. O Ministério do Interior admitiu que não havia informações a respeito de sua existência. Mas há dúvidas sobre a origem do grupo. "A linguagem utilizada não é uma linguagem islâmica", disse o porta-voz do ministério, Gérard Gachet. Despertam dúvidas a ausência de referências religiosas, a referência ao país - Afeganistão - e não a grupos religiosos e culturais específicos e a expressão "lojas capitalistas", entre outros indícios. Ao longo dos últimos meses, pequenos atos terroristas têm sido lançados contra a rede de trens de alta velocidade da França. Essas ações têm sido atribuídas pelo Ministério do Interior - ainda que sem provas efetivas - a um pequeno grupo de ultra-esquerda.

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