Leah Millis/Reuters
Leah Millis/Reuters

Ameaça de Trump à OMS abre caminho para China liderar luta contra covid-19

Enquanto presidente dá indícios de que pode tirar EUA da entidade, europeus apoiam organização e reclamam que isolamento americano permite que vácuo seja ocupado por Xi Jinping

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2020 | 05h00

As ameaças feitas por Donald Trump nos últimos dias, de cortar financiamento e abandonar a Organização Mundial da Saúde (OMS), fortaleceram a posição da China e abriram caminho para que Xi Jinping lidere a luta global contra a covid-19. Na terça-feira, 19, no último dia da assembleia-geral da OMS, os europeus se queixaram que o isolamento americano criou um vácuo de liderança que vem sendo ocupado pelos chineses.

 “É impressionante ver Xi Jinping aproveitar a oportunidade e se abrir, com grande cooperação, propondo US$ 2 bilhões e dizendo que, se houver uma vacina, eles a compartilharão com todos”, disse um diplomata europeu à Agência Reuters. “Este é exatamente o que temíamos: o espaço deixado por Washington sendo ocupado por Pequim.” 

Na noite de segunda-feira, Trump enviou uma carta endereçada ao diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, dando um prazo de 30 dias para que a entidade se comprometa com “melhoras significativas”, sob risco de cortar permanentemente o financiamento americano e, em último caso, retirar os EUA da instituição.

O presidente dos Estados Unidos acusou a OMS de favorecer a China e de ter ignorado “relatórios confiáveis” de que o vírus se espalhou na cidade de Wuhan, no início de dezembro ou mesmo antes. “Não posso permitir que os dólares dos contribuintes americanos financiem uma organização que claramente não atende aos interesses dos EUA”, escreveu Trump.

Na terça-feira, o diretor da OMS disse que a entidade continuará liderando a resposta global ao vírus. “Queremos transparência mais do que ninguém”, afirmou Tedros. Todos os 194 membros da entidade, incluindo a China, concordaram em abrir uma investigação independente sobre a resposta à pandemia, incluindo o papel da própria OMS – uma das exigências do presidente americano.

A OMS também aprovou ontem uma resolução que apoia a possibilidade da quebra de patentes de futuras vacinas ou tratamentos para covid-19, atendendo a uma demanda dos países mais pobres para que seja garantido o acesso global igualitário aos tratamentos. O espírito do texto é o mesmo contido na Declaração de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2001, que abre caminho para o licenciamento compulsório de vacinas e remédios em emergências de saúde – que foi usada no combate ao HIV.

Os EUA, apesar de não terem bloqueado o texto, publicaram um comunicado com ressalvas à resolução. O governo americano rejeitou a quebra unilateral de patentes, dizendo que vacinas e remédios deveriam ser distribuídos de maneira “voluntária” pelos laboratórios. “A quebra de patentes enviaria a mensagem errada para inovadores que serão essenciais na busca por soluções que o mundo inteiro busca”, diz o comunicado da delegação americana.

O contraponto à posição dos EUA foi dado pela China, que apoiou a França e os países emergentes, afirmando que qualquer vacina que venha a ser descoberta deve ser tratada “como bem público, para uso da coletividade”. Na terça-feira, aumentando ainda mais o isolamento de Trump, a União Europeia apoiou a OMS. “É hora de solidariedade, não de apontar o dedo ou de minar a cooperação multilateral. A UE apoia os esforços da OMS”, disse a porta-voz da diplomacia europeia, Virginie Battu.

Os EUA enviam US$ 450 milhões anualmente à OMS, maior contribuição feita por um país. A verba já havia sido congelada por Trump em abril, como forma de pressionar a organização. No entanto, a promessa de Xi de dar US$ 2 bilhões nos próximos dois anos foi uma forma de neutralizar a influência americana e passar uma rasteira em Trump. 

Ontem, o governo chinês voltou a rejeitar as acusações americanas. “Os EUA estão tentando usar a China para desviar a responsabilidade pela péssima gestão da pandemia”, disse o porta-voz da chancelaria chinesa, Zhao Lijian. / REUTERS e AFP

 

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