Ameaça republicana à ciência

Uma maioria da oposição no Senado poria em risco esforço contra aquecimento global

PHIL, PLAIT, SLATE, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2014 | 02h00

Nas eleições de meio de mandato de ontem, nos Estados Unidos, parecia óbvio que a Câmara dos Deputados permaneceria sob controle republicano, mas o partido poderia obter também uma pequena maioria no Senado.

O que isso significaria? Bem, no curto prazo e em relação a muitas questões, não muito. Esse último Congresso ficará marcado como o menos eficiente da história, uma vez que tudo o que fez, na verdade, foi bloquear as iniciativas da Casa Branca. Não conseguiu nem mesmo aprovar a indicação de um ministro da Saúde.

Uma maioria republicana no Senado provavelmente significaria mais do mesmo, já que ela não deveria obter a supermaioria necessária para impedir adiamento de temas e votações pelos democratas no caso de questões importantes.

Essa enorme polarização da política americana é venenosa, especialmente no que se refere ao premente problema do aquecimento global. Nesse aspecto, a maioria republicana no Senado poderia ter um efeito extremamente destrutivo. Ela conseguiria que um grupo de políticos que nega a ciência assumisse uma posição de autoridade no tocante às verdades científicas que quer pisotear. O que é extremamente preocupante na minha opinião e deve ser para você também.

Nessa área, nada é mais importante do que a Comissão de Meio Ambiente e Obras Públicas. A vitória republicana, quase certamente, tornaria James Inhofe presidente dessa comissão que controla a Agência de Proteção Ambiental, encarregada dos assuntos relacionados às mudanças climáticas e soluções para o problema.

Inhofe, republicano de Oklahoma, é provavelmente o político no Senado que mais nega, e de modo inflexível, o aquecimento global. Ele rejeita a teoria a tal ponto que faria o mais raivoso teórico da conspiração balançar a cabeça assombrado.

Ele já sugeriu que atacará os órgãos encarregados de regulamentar os gases que produzem o efeito estufa. Portanto, se ficar com o controle dessa comissão, será como colocar "a raposa cuidando do galinheiro", o que é uma lástima. Outras comissões não se sairão melhor. Um exemplo é Ted Cruz, republicano do Texas, que poderá se tornar o presidente da Comissão de Ciência e Espaço, que também nega o aquecimento global. A ironia é tão atroz quanto familiar.

Naturalmente, o mantra republicano recente é afirmar "não sou cientista, mas...", como se isso os desculpasse quando negam a realidade. Já condenei essa noção ridícula antes. Ela nasceu em 2012, quando Marco Rubio, republicano da Flórida, usou a frase ao dizer que "não tinha certeza quanto à antiguidade da Terra"(!). Hoje ela tem sido usada como escudo para a rejeição republicana do aquecimento global. Era uma bobagem na época e ainda é.

A falta de qualificações científicas desses políticos não os impediu de tentar aprovar uma legislação médica para controlar os corpos das mulheres ou apoiar projetos de lei sobre agricultura, saúde e tantos outros assuntos ligados à ciência. Claramente, trata-se de uma artimanha cínica. E isso terá um custo para nós.

Essas eleições ocorreram poucos dias depois de o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) divulgar seu quinto relatório de avaliação sobre mudança climática. O documento de 40 páginas deixa muito claro que o aquecimento global é real, são os humanos que o estão causando e isso vem afetando o clima do planeta.

A síntese apresentada para os legisladores em Washington é tão sucinta quanto brutal na sua avaliação. Alguns trechos:

"A influência humana sobre o sistema climático é clara e as recentes emissões antropogênicas de gases que produzem o efeito estufa são as mais altas na história. Mudanças climáticas recentes têm tido impactos generalizados sobre os seres humanos e sistemas naturais."

"O aquecimento global é inequívoco e, desde a década de 50, muitas das mudanças observadas não têm precedentes em décadas ou milênios. A atmosfera e o oceano aqueceram, o volume de neve e gelo diminui e o nível do mar subiu."

O relatório fornece evidência e suporte para essas afirmações, chegando a especificidades aterrorizantes:

"O aquecimento global influencia o aumento da energia armazenada no sistema climático, representando mais de 90% da energia acumulada entre 1971 e 2010 (grau de confiança alto) com apenas 1% armazenado na atmosfera."

"Desde o início da era industrial, a absorção de CO2 pelos oceanos resultou na sua acidificação, que aumentou 26%."

A acidificação dos oceanos está matando espécies inteiras, perturbando o seu equilíbrio ecológico. Além disso, leva a um aumento do nível do mar, afeta o equilíbrio do transporte de calor do planeta e a ampliação de climas extremos que observamos em todo o planeta.

"A emissão contínua de gases de efeito estufa provocará mais aquecimento e mudanças duradouras em todos os componentes do sistema climático, aumentando a probabilidade de impactos severos, generalizados e irreversíveis para as pessoas e os ecossistemas", diz o relatório.

Pergunte aos californianos, que vêm sofrendo com uma das piores secas da história, o que acham das "mudanças climáticas duradouras". O aquecimento global é real. Ele vem provocando mudanças do clima numa escala planetária e isso é extremamente perigoso para a humanidade. Mas políticos republicanos negam tudo isso, como se suas carreiras e financiamento dependessem dessa negativa. É esse o significado dessas eleições.

Não sou, de modo nenhum, um eleitor concentrado num único tema, a não ser que você considere a realidade como um tema. O voto de ontem literalmente afetará o futuro da humanidade.

Os Estados Unidos vão finalmente adotar medidas contra a maior ameaça que nós, como espécie, enfrentamos hoje? Ou elegerão autoridades que preferem enriquecer com a indústria do combustível fóssil e enterrar a cabeça na areia, adiando por pelo menos mais dois anos qualquer ação ou reconhecimento de que é preciso adotar medidas contra o aquecimento global? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É AUTOR DO BLOG 'BAD ASTRONOMY' E ESCREVE PARA 'SLATE'

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