América do Sul sob ameaça

Na época dos atentados de 11 de setembro, americanos procuraram culpados na Tríplice Fronteira

Christina Stephano Queiroz e Gabriel Toueg, do estadão.com.br

09 Setembro 2011 | 14h34

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

SÃO PAULO - No marco dos 10 anos do 11 de Setembro, representantes da comunidade árabe criticam o que chamam de "indústria de paranoias" criada pela guerra contra o terror, que gerou graves consequências na Tríplice Fronteira - região limítrofe entre Brasil, Argentina e Paraguai. O Consulado Geral de Israel em São Paulo, por outro lado, critica a falta de políticas rígidas para combater ações terroristas nos países da América do Sul.

 

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Os Estados Unidos se apoiaram na ideia de que a América do Sul é uma terra sem lei que favorece a organização de redes terroristas para realizar uma busca massiva de culpados na região. Na época, o Departamento de Estado do país distribuiu informes à imprensa garantindo que a Tríplice Fronteira - que reúne cerca de 15 mil muçulmanos, o que representa a maior comunidade de toda América Latina - ocultava redes terroristas, algo que foi tomado como verdade por meios de comunicação norte-americanos, argentinos e até mesmo brasileiros.

 

Com isso, árabes da região precisaram enfrentar interrogatórios e acusações. O caso mais célebre foi o de Assad Ahmad Barakat. O comerciante, que vive em Foz do Iguaçu (PR) desde 1987, foi acusado de ser um dos líderes do grupo xiita libanês Hezbollah na Tríplice Fronteira. A polícia havia encontrado documentos sobre o grupo nos cofres de sua empresa. Após investigação, contudo, ficou comprovado que o único delito de Barakat havia sido a sonegação de impostos, crime pelo qual passou seis anos na prisão.

 

"Era algo comum na época. A polícia acusava os árabes de serem terroristas e no final o único que conseguiam comprovar era que o individuo sonegava impostos ou vendia produtos pirata", lembra Fouad Mohammad, empresário de Foz do Iguaçu e um dos fundadores do movimento Paz Sem Fronteiras, criado em 2001 para contestar a visão da comunidade difundida pelos Estados Unidos. De acordo com ele, lavagem de dinheiro, pirataria, contrabando e terrorismo eram tratados como se fossem crimes com a mesma gravidade. Dizia-se, ainda, que o dinheiro ganho com contrabando financiava o terrorismo.

 

Segundo Mohammad, após o 11 de Setembro, houve uma ação intimidadora contra a população da Tríplice Fronteira. "(Pessoas) encapuzadas entravam armados em lojas e interrogavam as pessoas de forma violenta", conta. "Não sabíamos quem eram os autores dessas ações e ninguém queria se expor ao ridículo, de maneira que muitos deixavam de trabalhar", conta.

 

As ações iam além. Segundo o presidente da Fearab (Federação das Entidades Árabes) da Argentina, Néstor Suleiman, pessoas eram fiscalizadas com frequência dentro de mesquitas, quando iam rezar. "A campanha da imprensa favoreceu o clima de desconfiança e medo com relação à comunidade árabe na região", diz.

 

Para John Tofik Karam, doutor em Antropologia Cultural pela Syracuse University de Nova York e professor na DePaul University de Chicago, a Tríplice Fronteira foi o "bode expiatório da política americana contra o terror na América do Sul". Segundo ele, as acusações precisam ser entendidas dentro do contexto da história e das relações entre a região e os Estados Unidos. "Muitos especialistas em segurança enviados para investigar supostos terroristas sequer falavam português, espanhol ou árabe", diz Karam.

 

Ainda segundo Karam, as acusações desses agentes - que não foram comprovadas - fariam parte de uma indústria de paranoias fomentada, entre outras razões, pela necessidade de Washington encontrar culpados para os atentados. "Os relatórios citavam a imprensa como fonte. A mídia é sim uma fonte interessante, mas não comprova fatos", critica.

 

Com relação às acusações de sonegação, Karam diz acreditar que esse é um crime comum em fronteiras. Mas, afirma, os EUA usaram esse problema como argumento para justificar que na Tríplice Fronteira se organizavam redes terroristas. Para ele, foi uma teoria conspiratória que ganhou credibilidade na medida em que a imprensa aderiu ao discurso. "Os analistas conectaram o contrabando com terrorismo islâmico, como se o primeiro elemento justificasse a existência do segundo", afirma. Outra alegação usada para fomentar a teoria foi o fato de que na Tríplice Fronteira há muitos xiitas. "E onde há xiitas há acusações de financiamento do Hezbollah", diz.

 

Karam diz que prefere usar a palavra "violência" em vez de "terrorismo". "Seria possível chamar diversos governos do mundo de 'terroristas'", afirma. "Ambos (governos e grupos militantes) praticam violência contra civis e inocentes e o medo contra o terrorismo virou justificativa para violar direitos humanos", sustenta.

 

Entre a paranoia e a realidade

 

Mas, para o cônsul-geral de Israel em São Paulo, Ilan Sztulman, hoje o terrorismo representa uma ameaça real na América do Sul. "Eu não 'acho' que o terror é uma ameaça relevante na América Latina. Eu sei que o terror é uma ameaça relevante", enfatiza.

 

Para comprovar o argumento, Sztulman lembra de dois atentados ocorridos na Argentina recentemente. Em 1992 e 1994, bombas detonadas diante da Embaixada israelense em Buenos Aires e da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), deixaram mais de 100 mortos. Segundo ele, os responsáveis pelas ações entraram no país por Puerto Iguazú, cidade argentina na Tríplice Fronteira.

 

"Os atentados colocaram a América do Sul no radar de políticas antiterroristas e seus impactos podem ser sentidos até hoje", garante. "O terror pode atacar em qualquer lugar do mundo", diz.

 

Gabriel Weimann, especialista em terrorismo e novas mídias da Universidade de Haifa, também em Israel, concorda com Sztulman. Segundo ele, que visita o Brasil esta semana para encontros com a Polícia Federal e com políticos em Brasília, o País passa a ser alvo da ação de grupos terroristas por conta de sua crescente relevância geopolítica no mundo e porque vai sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, eventos agendados para 2014 e 2016.

 

Preparação

 

Sztulman compara a situação do Brasil hoje com aquela da Argentina na década de 1990, quando ocorreram os ataques. Segundo ele, como Brasília hoje, Buenos Aires tinha boas relações com governantes do mundo árabe, algo que não impediu que ações violentas ocorressem em seu território. "E, devido a essas boas relações, operadores do Irã e do Líbano entravam e saíam da Argentina sem problemas, o que facilitou o atentado", diz.

 

Para o diplomata, o Brasil deve estar preparado para essa ameaça, principalmente tendo em vista os eventos esportivos. Ele acha que o País precisa investir na criação de órgãos de inteligência, em recursos de segurança nos aeroportos, além de métodos para evitar ataques.

 

Baseado na experiência israelense, o consulado oferece um curso a autoridades do país, que aprendem como lidar com traumas e como se organizar em caso de ações terroristas. As aulas ocorrerão em dezembro e serão oferecido a quatro políticos do Estado de São Paulo.

 

O secretário de saúde, Giovanni Cerri, será responsável por escolher as pessoas para o treinamento, que será realizado na cidade de Haifa, em Israel, no Hospital Rambaum que, segundo o cônsul, "tem muita experiência nas guerras do Líbano e com dezenas de ataques terroristas".

 

Disponível a políticos de todo o mundo, o curso ocorre três vezes ao ano. Além dele, os consulados de Israel também organizam treinamentos periódicos em outras áreas, entre elas jornalismo em zonas de combate e serviços de polícia em regiões violentas.

 

Sztulman, contudo, vê com otimismo o avanço das medidas de segurança na região. Segundo ele, mesmo com pouco rigor, as medidas ganharam força depois dos atentados em Nova York em 2001. "Eu, por exemplo, não posso morar em uma casa, nem mesmo nos últimos ou primeiros andares de um prédio", diz.

 

Ele destaca, por fim, que o número total de israelenses mortos desde a criação do Estado de Israel, seja em guerras, atentados ou outros ataques, são cerca de 20 mil, enquanto entre a população árabe o número é sete vezes mais alto. "Os próprios árabes e muçulmanos são as principais vitimas dessas ações de pequenos grupos políticos ou religiosos que adotam posições extremas", conclui.

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