América Latina+20

A se julgar pelos comentaristas e palpiteiros do ramo, a conferência para o desenvolvimento sustentável, no Rio de Janeiro, tem tudo para decepcionar. A redação de seu texto final se arrasta, apesar dos esforços frenéticos dos negociadores nos últimos dias.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h03

Nações ricas e os novos ricos, novamente, ensaiam não se entender sobre quem mais polui e quem deve pagar por isso, reprisando o impasse da última edição do evento há 20 anos. O prego no caixão, dizem os céticos, seria a ausência anunciada do presidente Barack Obama, da chanceler Angela Merkel e do premiê David Cameron - os chefes das nações mais poderosas e poluidoras do planeta.

No entanto, o atestado de óbito da Rio+20 seria prematuro e perigoso. Há muito em jogo. Para se falar apenas da vizinhança, um aumento de 2º centígrados da temperatura do planeta provocaria na América Latina perdas de US$ 100 bilhões até meados do século, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). São quebras de safra por seca ou emergências climáticas que sobem com os termômetros.

A conta do BID parece injusta. América Latina e Caribe contribuem muito pouco para desequilibrar o planeta. Juntos, produzem apenas 11% dos gases (CO2 e metano) que levam ao efeito estufa. No entanto, com o crescimento mais acelerado e as novas classes médias e pobres emergentes finalmente se juntando à festa, a pegada de carbono latino deve dobrar até 2050 - das 4,7 toneladas de CO2 per capita de hoje para 9,3 toneladas.

Pior, a região é altamente dependente dos recursos naturais (destaque para os produtos agrícolas), que são especialmente vulneráveis a baques climáticos. Para evitar desastres, o BID receita investimentos pesados de até US$ 110 bilhões em tecnologia e inovação para combater as emissões de carbono.

Os países em desenvolvimento clamam por um fundo de compensações - fala-se na ordem de US$ 30 bilhões - bancado por países ricos. Com a Comunidade Europeia na berlinda e seus credores também, ninguém está prendendo a respiração.

Isso condena a Rio+20 a estrear natimorta. A ausência de um consenso não significa paralisia. Costurar um pacto a centenas de mãos, como manda o rito das Organizações das Nações Unidas, é um convite à colisão ou, no máximo, a acordos anódinos. Rio, Copenhague, Cancún, Durban, entram e saem cúpulas sem que se avance em compromissos esboçados no Protocolo de Kyoto.

Claro, a desordem climática atravessa fronteiras. Há muito, porém, as nações podem fazer, sozinhas ou em bloco, que não dependem do aval incerto de todos. A China, poluidora emergente, criou um polo de tecnologia verde e lidera o mundo na fabricação de painéis solares. A Europa, mesmo combalida, incentiva companhias aéreas a reduzirem emissões no mercado de carbono. Os EUA inventaram a tecnologia para extrair gás natural de xisto.

A América Latina não está mal na fita. Segundo um relatório do Massachusetts Institute of Technology (MIT), 95% das cidades na região estão cientes da ameaça das mudanças climáticas e fazendo planos para prevenir os impactos danosos. Nos EUA, só 59% das cidades se previnem.

No México, o maduro Plano Verde está prestes a abater 7,7 milhões de toneladas de emissões de veículos até o fim deste ano. No Brasil, diminuiu o desmatamento da Amazônia, o maior vilão do efeito estufa verde-amarelo, enquanto os agrônomos da Embrapa se debruçam sobre pesquisas para criar cultivos resistentes a secas e uma pecuária que não deprede o meio ambiente.

É pouco diante da ameaça. Mas são essas iniciativas, pontuais e coordenadas, que podem melhor e mais rapidamente responder ao desafio de um clima revolto. "Deixar de agir no Rio seria desastroso, mas insistir em um acordo único internacional seria um erro grave", escreveu recentemente uma especialista. "Não podemos depender de políticas globais para resolver o problema de como administrar recursos."

As palavras são de Elinor Ostrom, Prêmio Nobel de Economia, em artigo publicado no dia 12, o mesmo dia em que ela morreu. Desenganada pela gravidade da ameaça das mudanças climáticas, mas também pelo canto das soluções fáceis, propôs um pacto pelo possível. Sua voz fará falta no Rio. 

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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