América Latina de olho na questão catalã

Ausência de movimentos separatistas na região aumenta interesse dos latino-americanos pelo futuro da Catalunha

ECONOMIST

26 Novembro 2017 | 05h00

A América Latina está ligada a Espanha e Portugal pela língua, pela cultura e linhagem, bem como por investimento e o projeto comum de democracia. Portanto, não é de se surpreender que o conflito sobre o futuro da Catalunha tenha atraído os latino-americanos. 

Para a maioria na América Latina, é óbvio que a Catalunha faz parte da Espanha. Enquanto o império espanhol era no início um empreendimento castelhano, a Catalunha também providenciava vice-reis e os antepassados dos presidentes. Nas últimas décadas, muitos escritores latino-americanos fizeram de Barcelona, com seus agentes literários e editoras, seu lar temporário ou permanente. Tendo vivido em por 12 anos em Barcelona até 2012, Juan Gabriel Vásquez, um dos principais romancistas da Colômbia, escreveu no mês passado no El País, jornal espanhol, sobre seu “assombro e melancolia” quanto à motivação de independência catalã.

O assombro existe também porque o separatismo é estranho à América Latina. Esta declaração requer uma ligeira ressalva. A América de fala espanhola do continente dividiu-se em 15 países após a independência. Para conseguir construir um canal, Theodore Roosevelt conseguiu separar o Panamá da Colômbia em 1903. O Rio Grande do Sul lutou uma guerra de dez anos para se separar do Brasil antes de, gradualmente, chegar a um acordo em 1845. 

Países como o Brasil e o México transformaram a unidade nacional em um projeto político explícito. Em 1937, Getúlio Vargas, o populista da construção nacional do Brasil, tendo declarado uma ditadura, ordenou a queima cerimonial das bandeiras dos Estados – incluindo a bandeira farroupilha, como a bandeira de seu Estado foi chamada. Ele afirmou ter esmagado “a arrogante imposição dos interesses regionais” que colocavam em perigo a unidade nacional. Vargas ordenou que o português fosse o único idioma ensinado nas escolas.

Algo parecido ocorreu no México após a revolução de 1910. “Somos indígenas, de sangue e alma; o idioma e o ensino são espanhóis”, declarou José Vasconcelos, ministro da Educação na década de 20 e defensor da mestiçagem como a essência da América Latina. Só mais recentemente no México, como nos países andinos, os governos promoveram o ensino bilíngue em espanhol e idiomas indígenas.

Para que as queixas regionais se tornem movimentos separatistas, há a necessidade de algumas condições específicas, como observou Alberto Vergara, cientista político da Universidade do Pacífico em Lima, em um estudo comparativo do Peru e da Bolívia. Estas incluem uma poderosa elite política regional, o acesso a recursos econômicos e comércio exterior e uma importante cidade que rivalize com a capital nacional. Tais condições se aplicam ao movimento boliviano centrado em Santa Cruz, que flertou com a secessão durante sua batalha política com Evo Morales, o presidente socialista. E se aplicam à Catalunha.

Mas se o movimento boliviano se esgotou foi em parte porque a atração pela unidade nacional na América Latina é forte. A demanda popular é, muitas vezes, fazer isso realidade criando infraestrutura e disseminando os serviços públicos. Fora do Brasil, do México e da Argentina, os latino-americanos sabem o que significa para os seus países serem pequenos e fracos em termos globais e a separação desperta pouco interesse.   

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CLAUDIA BOZZO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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