América Latina tenta domar o ''dragão chinês''

Acostumada a culpar portugueses, espanhóis e americanos por suas agruras, região terá de resistir ao avanço econômico da China no século 21

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Em As veias Abertas da América Latina, seu libelo contra a pilhagem da América Latina pelas nações mais poderosas, o escritor uruguaio Eduardo Galeano soltou o verbo. "Nossa região continua trabalhando como um serviçal, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre, carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina ganha produzindo-os", escreveu em 1971. Os ricos, à época, eram a Europa e os Estados Unidos, os louros de olhos azuis, como diria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O que escreveria Galeano agora? Semana passada, enquanto os especialistas debatiam se a economia dos Estados Unidos mergulharia novamente em recessão - arrastando com ela a economia global -, nas manchetes só dava China. É que o Reino do Meio já ultrapassou Japão para tornar-se a segunda economia mundial. À primeira vista, foi só um factoide, resultado momentâneo do câmbio favorável aliado ao efeito contábil do PIB dolarizado.

No fundo, acontece que o mundo está girando e com ele, o eixo de poder global, também. Firmando seu papel de locomotiva econômica, a China já arrasta meio mundo, inclusive nas Américas. É o primeiro exportador global e, em breve ultrapassará os Estados Unidos em consumo de energia. Desbancando a Europa, a China é o principal comprador de produtos do continente africano e de boa parte dos bens da América Latina. Ela investiu US$ 25 bilhões na América Latina e no Caribe em 2008 - de acordo com os dados mais recentes disponíveis. Sua indústria demanda cada vez mais ferro, grãos, petróleo e comida, e ganha, convertendo-os em manufaturados, bem mais do que os países pobres ganham produzindo-os. Os gringos da hora teriam olhos puxados?

Saudada inicialmente como uma bênção, a pujança chinesa já causa espanto. Industriais, sindicatos e governos denunciam o avanço chinês sobre as latitudes mais pobres e, portanto, indefesas. É o "perigo amarelo", bradam os mais afobados. Cuidado com "o dragão na sala", avisam os economistas Kevin Gallagher e Roberto Porzecanski no seu livro homônimo sobre a presença chinesa no hemisfério ocidental. Até o romancista sueco Henning Mankell engrossou o coro da sinofobia em sua nova trama policial, O Homem de Beijing, que discursa sobre o "neocolonialismo" chinês.

Há evidente exagero e uma dose de fantasia nas afirmações sobre a ascensão chinesa e seu corolário, o declínio americano. Para todo seu poderio, a China ainda está longe do império de plantão, quer em poder bélico quer na bonança da sua ajuda externa. Tampouco encarna o novo soft power, ou superpotência cultural. (Qual foi o último filme blockbuster chinês que você assistiu?).

Mas, para América Latina, a questão é mais existencial. Ao mesmo tempo que a China cerca as fontes de recursos naturais do continente, também leva vantagem sobre a indústria latina na exportação global de máquinas, eletrodomésticos, computadores e bugigangas. Calcula-se que 94% das exportações manufaturadas da América Latina já tenham perdido espaço para a China, como afirmaram recentemente Gallagher e Porzecanski à repórter Claudia Trevisan do Estado. Assim, a economia chinesa se sofistica, consolidando sua capacidade tecnológica e inovadora, enquanto a América Latina arrisca patinar, entregando cada vez mais minério, grãos, óleo e gás.

Estará a América Latina fadada ao papel de fornecedor eterno de bens de baixo valor? Nem tanto. As commodities da sofisticada cadeia de agronegócio brasileiro ostentam mais tecnologia de ponta de que muitos bens manufaturados, segundo o cientista político Sérgio Abranches. Se há perigo para as economias latinas, não é de um neocolonialismo chinês, mas sim da conhecida doença holandesa. Aos países brindados com o capital chinês cabe não deixar embebedar suas economias, valorizando excessivamente a moeda e corroendo a competitividade da indústria nacional. Essa ameaça não tem bandeira. Afinal, a China representa um novo alternativo para as exportações da região vista, até então, como quintal do império americano. E com os Estados Unidos ainda distraídos com duas guerras e a economia anêmica, o mercado chinês se abriu. Mais mercado, mais poder de barganha. Nisso, não há nada de serviçal.

Em se tratando de gêneros sobre feras, em vez do ácido lamento de Galeano, prefiro Como Treinar o seu Gragão, lúdico desenho animado de Tim Burton. Nele, os vikings, e seu império de outrora, estão ameaçados pelas bestas aladas, até que um garoto franzino passa a domá-las, com mistura de esperteza e bondade. Claro, a caminho ele tem de engolir um peixe vivo e se sujeita ao ciclotimia do monstro. Mas acaba dominando o dragão, e até usando a força da fera para adestrar os seus anciões, esses sim presos em seus preconceitos tolos e antiquados. O filme foi aqui campeão de bilheteria. A presença chinesa, ainda não.

É CORRESPONDENTE NO BRASIL DA REVISTA "NEWSWEEK" E PUBLICA COLUNA AOS DOMINGOS NO "ESTADO"

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