Jefferson County Jail/via REUTERS
Jefferson County Jail/via REUTERS

No Alabama, mulher negra que abortou após levar 5 tiros na barriga é acusada de homicídio

Polícia do Estado americano - que equiparou aborto a assassinatos - acusa Marshae Jones de iniciar e continuar a briga com outra mulher e, consequentemente, colocar o bebê em risco; ela está detida enquanto a autora dos disparos segue solta

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2019 | 22h35
Atualizado 02 de julho de 2019 | 11h28

WASHINGTON - No Estado americano do Alabama, uma mulher negra enfrenta acusações criminais após levar 5 tiros na barriga e sofrer um aborto. O caso atraiu atenção nos Estados Unidos e provocou ultraje dos grupos de defesa de direitos, para os quais o incidente é um exemplo do tratamento desproporcional dado a uma mulher negra, grávida e pobre.

O Alabama aprovou em maio uma lei que proíbe o aborto, até mesmo em casos de estupro e incesto, e equipara a interrupção da gravidez a homicídio. Na quarta-feira, Marshae Jones, de 27 anos, foi levada sob custódia após ser indiciada no Condado de Jefferson por homicídio - um tribunal determinou uma fiança de US$ 50 mil para ela ser solta.

Em dezembro, Marshae - então grávida de 5 meses - se envolveu em em discussão com uma mulher de 23 anos do lado de fora de uma loja. A mulher, Ebony Jemison, sacou uma arma e atirou na barriga de Jones, que abortou pouco depois.

Inicialmente a polícia acusou Ebony de homicídio, mas um júri recusou-se a indiciá-la, dizendo que foi Marshae quem iniciou a briga e que a autora dos disparos estava agindo em legítima defesa.

"Não podemos nos esquecer de que o bebê que sequer chegou a nascer é a vítima neste caso", declarou o chefe da polícia local, Danny Reid, ao portal de notícias AL.com. "A criança não teve escolha e foi colocada de forma desnecessária em uma briga enquanto ainda dependia da mãe para sua proteção", completou.

Ainda segundo Reid, as duas mulheres teriam brigado por alguma questão envolvendo o pai do bebê. O Alabama é um dos 38 Estados americanos com leis sobre homicídio fetal que reconhece o bebê ainda antes de nascer como uma potencial vítima de um crime contra uma mulher grávida.

"Marshae Jones foi acusada de homicídio involuntário por perder uma gravidez após receber cinco tiros na barriga. Sua agressora segue em liberdade. Vamos tirá-la da prisão e daremos assistência legal", postou no Twitter a organização Yellowhammer Fund, que dá suporte para mulheres fazerem aborto.

"Amanhã, outra mulher negra será acusada talvez por tomar uma bebida durante a gravidez. E depois disso, outra, por não conseguir atendimento pré-natal adequado ”, afirmou Amanda Reyes, do Yellowhammer Fund,  também ao AL.com.

Em entrevista ao BuzzFeed News, Ebony afirmou que a acusação de homicídio contra Marshae é injusta, apesar de considerar que a mulher teve alguma culpa pelo ocorrido. "Não acho que ela deve ser acusada de homicídio porque ela não matou seu bebê", disse Ebony. "Mas ela deveria ser acusada por colocar a criança em perigo, agressão ou algo assim."

Quando perguntada se tinha uma mensagem para Marshae, Ebony disse que pediria desculpas e "mandaria condolências". "Eu sei que não é uma situação fácil de lidar. Se eu pudesse voltar (no tempo) e mudar a situação, eu faria isso."

Além do Alabama, vários Estados conservadores têm promulgado leis que restringem o acesso ao aborto desde o começo do ano. O objetivo é proporcionar um motivo para que a Suprema Corte reveja o tema. Os novos juízes conservadores indicados pelo presidente Donald Trump são a aposta para que a lei regrida nacionalmente. / AFP

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