Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

Americanas que se casaram com membros do EI querem voltar para casa

Em entrevista ao NYT, as duas mulheres disseram que estavam tentando descobrir como ter seus passaportes reemitidos, e como ganhar a simpatia das nações que elas desprezaram

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2019 | 16h46

AL HAWL CAMP, SÍRIA - Hoda Muthana era uma estudante universitária de 20 anos do Alabama que se convencera do senso de justiça do Estado Islâmico. A jovem enganou os pais para que pensassem que ela estava indo fazer uma viagem da faculdade. Em vez disso, comprou uma passagem de avião para a Turquia com o dinheiro que pagaria a mensalidade da escola.

Depois de ser contrabandeada para o califado, a estudante publicou uma foto no Twitter mostrando em suas mãos seu  passaporte americano. "Na fogueira em breve", prometeu.

Isso foi há mais de quatro anos. Agora, depois de se casar com três combatentes do Estado Islâmico e testemunhar execuções como as que ela já aplaudiu uma vez nas redes sociais, Muthana diz que sente muito e quer voltar para os Estados Unidos.

Ela se rendeu no mês passado às forças de coalizão que lutam contra o Estado Islâmico, e agora passa seus dias detida em um campo de refugiados no nordeste da Síria. Ela é acompanhada por outra mulher, Kimberly Gwen Polman, de 46 anos, que estudou administração legal no Canadá antes de entrar para o califado - ela possui dupla cidadania americana e canadense.

As duas mulheres, entrevistadas pelo New York Times no acampamento, disseram que estavam tentando descobrir como ter seus passaportes reemitidos, e como ganhar a simpatia das duas nações que elas desprezaram.

"Eu não tenho palavras para o quanto eu lamento", disse Polman, que nasceu em uma comunidade Menonita Renovada em Hamilton, Ontário, de mãe americana e pai canadense, com três filhos adultos.

Muthana, que freqüentou o ensino médio em Hoover, Alabama, e a Universidade do Alabama, em Birmingham, disse que foi atraída pela primeira vez para o EI no ensino médio, lendo o Twitter e outros posts de rede social.

"Quando olho para trás, não consigo expressar o quanto aquela foi uma ideia maluca", disse ela. "Não posso acreditar. Arruinei minha vida. Arruinei meu futuro."

Em um tuíte publicado no fim de semana, o presidente Donald Trump criticou aliados como Reino Unido, França e Alemanha por não terem repatriado centenas de prisioneiros do Estado Islâmico capturados no campo de batalha. "A alternativa não é boa, pois seremos forçados a libertá-los", alertou.

O presidente não mencionou as mulheres americanas que se casaram com combatentes do Estado Islâmico e agora os EUA não as querem de volta. Tanto Muthana quanto Polman disseram que não foram visitadas por autoridades americanas desde sua captura no mês passado. 

Elas também disseram que havia uma família de quatro irmãs de Seattle, com quatro filhos, e todos estão detidos em um campo separado. Um ex-oficial confirmou que uma família de Seattle viajou para a Síria para se juntar ao Estado Islâmico, mas não deu mais informações.

Um pequeno número de americanos - apenas 59, de acordo com dados do Programa de Extremismo da George Washington University  - viajou para a Síria para se juntar ao EI. Quase todos os homens americanos capturados em batalha foram repatriados, mas não está claro por que algumas das mulheres americanas e seus filhos - pelo menos 13 conhecidos pelo Times - não foram.

Uma porta-voz do FBI recusou-se a comentar os dois casos, mas disse que os agentes normalmente trabalham para construir um processo criminal contra qualquer americano que se junte ao Estado Islâmico, uma organização terrorista designada.

Complicado

Robert Palladino, porta-voz do Departamento de Estado, descreveu na terça-feira a situação dos americanos na Síria como "extremamente complicada". Ele disse: "Estamos estudando esses casos para entender melhor os detalhes", mas não quis comentar mais, citando preocupações com privacidade e segurança.

Uma autoridade do governo canadense disse que pode ser difícil para os canadenses detidos na Síria deixarem a região porque eles provavelmente enfrentarão sérias acusações nos países vizinhos.

Citando os muitos crimes cometidos pelo EI, Seamus Hughes, vice-diretor do programa da George Washington, disse que havia "milhares de razões legítimas para questionar a sinceridade" dos argumentos de Muthana e Polman.

“As mulheres estrangeiras do Estado Islâmico, embora frequentemente reduzidas a simplesmente 'noivas jihadistas',  que passaram por lavagem cerebral', ajudaram e encorajaram muitas dessas atrocidades e, em alguns casos, as perpetraram diretamente”, disse ele.

Muthana e Polman reconheceram na entrevista ao Times que muitos americanos questionam se merecem ser trazidos de volta para casa depois de se juntarem a um dos grupos terroristas mais letais do mundo.

“Como você vai de queimar um passaporte para chorar até dormir porque tem tanto arrependimento profundo? Como você faz isso? ”, Perguntou Polman. "Como você mostra às pessoas isso?" / NYT

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