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Americanismo

A primeira semana de Donald Trump como o próximo presidente dos Estados Unidos bateu em nós como a primeira semana do resto de nossas vidas

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2016 | 05h00

A primeira semana de Donald Trump como o próximo presidente dos Estados Unidos bateu em nós como a primeira semana do resto de nossas vidas. Por alguns minutos, durante um moderado discurso de vitória em que convocou o país a se unir, o magnata nos fez acreditar que o discurso racista, sexista, nativista de sua campanha poderia ter sido apenas marketing eleitoral. Nos dias que se seguiram essa suspeita caiu por terra. 

Trump apontou o ultranacionalista e supremacista branco Stephen Bannon, diretor do site de extrema direita Breitbart, como estrategista-chefe da Casa Branca; o veterano Michael Flynn, que se referiu publicamente à religião muçulmana como um “câncer” e foi demitido por Barack Obama, para Segurança Nacional; Mike Pompeo, um defensor da tortura, como diretor da agência de inteligência americana CIA; e o senador Jeff Sessions, do Alabama, cuja marca é a perseguição a imigrantes, como secretário de Justiça.

Sessions, que será o guardião das leis americanas em defesa dos direitos civis, como lembrou o New York Times, foi impedido de se tornar juiz por um comitê controlado por republicanos em 1986, acusado de atos racistas. O futuro secretário de Justiça já se declarou simpatizante do Ku Klux Klan até “descobrir que eles fumavam maconha” e se referiu à Conferência da Liderança Cristã do Sul, fundada por Martin Luther King Jr., como um grupo “não americano”.

Significado. É com essa equipe que Trump pretende “fazer a América grande de novo” (“Make American great again”, slogan da campanha republicana). Seu credo é “o americanismo, não o globalismo”, como disse Trump. Os eleitores só se esqueceram de perguntar ao republicano o que isso significa. 

A julgar pelos que apontou para sua equipe até agora, uma grande nação seria feita por brancos nativos e cristãos – os “americanos reais”, em sua concepção. Mas o que é ser “verdadeiramente” americano? O Instituto de Pesquisa Pública em Religião, que estuda o impacto de mudanças culturais no cenário político nos Estados Unidos, fez essa pergunta aos eleitores, assim que Trump lançou sua candidatura sob a bandeira do americanismo. Quase 90% responderam que falar inglês era essencial; 70% colocaram a crença em Deus como imperativo e 53%, especificamente, na fé cristã. Para 58%, ter nascido nos Estados Unidos é condição básica.

Ao pensar assim, eles ignoram 14% da população – ou quase 60 milhões de cidadãos – que nasceu em outros países, principalmente na América Latina e na Ásia, segundo o Pew Research Center – ao menos 22,8% dos americanos não cristãos e quase a metade dos jovens entre 18 a 24 anos, não branca.

Entre crianças matriculadas em escolas, as que fazem parte de minorias étnicas, incluindo afrodescendentes, já são maioria. Essa virada demográfica ocorreu em 2011, quando, pela primeira vez, nasceram mais bebês não brancos do que brancos. Em pouco mais de 20 anos, de acordo com projeções do Censo, as minorias se tornarão maioria da população nos Estados Unidos.

É uma má notícia para a equipe de Trump, que acredita em uma América grandiosa de brancos nativos e cristãos. Mas eles estão errados. A história nos mostra que o purismo não faz uma nação ser grande, mas medíocre. Os Estados Unidos se beneficiaram como nenhum outro do movimento global de ideias e pessoas. Sua liderança em áreas da ciência, tecnologia, medicina se deve, em grande parte, a isso.

Nobel. Quase um terço dos 365 prêmios Nobel atribuídos aos EUA, mais do que a qualquer outro país, foi conquistado pelas mãos, e o intelecto, de não nativos. São cientistas que emigraram do México, Venezuela, Egito, Turquia, Índia, África do Sul, Coreia, China, Japão, Rússia, Polônia, Hungria, Lituânia, Romênia, Inglaterra, Irlanda, Áustria, Alemanha, Itália, Suíça, Holanda, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e aplicaram seu conhecimento em instituições e universidades americanas. 

Não fosse pela escolha de Bob Dylan em Literatura, 2016 seria o primeiro ano, desde 1999, sem um Nobel para um americano. Mas os Estados Unidos conquistaram também o prêmio nas áreas de economia, química e física graças a não nativos. Sem contar que Dylan é neto de imigrantes – seus avôs maternos vieram de Lituânia, em 1902; os paternos emigraram de Odessa (hoje Ucrânia), em 1905, como milhões de judeus o fizeram, refugiando-se do antissemitismo no Leste Europeu. 

O primeiro americano a ganhar o Nobel, em 1907, Albert A. Michelson, nasceu na Prússia (atual Polônia). Os trumpistas não podiam estar mais enganados sobre como fazer a América grande.

TWITTER: @ADRIANACARRANCA

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