REUTERS/Indian Coast Guard
REUTERS/Indian Coast Guard

Americano é morto a flechadas por tribo isolada da Índia

John Allen Chau, de 27 anos, carregava bíblia e tentaria converter os nativos da Ilha Sentinela do Norte - considerada a mais isolada do planeta - para o cristianismo, segundo a polícia; sete pessoas que o ajudaram foram presas e acusadas de homicídio culposo

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2018 | 16h46

PORT BLAIR, ÍNDIA - O americano John Allen Chau, de 27 anos, sabia que o que estava prestes a fazer era extremamente perigoso. Ele queria chegar a uma ilha remota no Mar de Andaman usando um pequeno caíque. O local, uma das partes mais isoladas da Índia, é habitado por uma pequena e altamente enigmática tribo cujos membros atacam pessoas simplesmente por pisarem em suas praias.

Pescadores locais tentaram convencer Chau a desistir da ideia. Até hoje, pouquíssimos "outsiders" conseguiram ir e voltar com vida à Ilha Sentinela do Norte, habitada por esta tribo frequentemente descrita como a mais isolada do planeta e que rejeita qualquer contato com o mundo exterior. Além disso, uma regulamentação do governo indiano proíbe qualquer interação com os moradores da ilha.

Mas Chau não os ouviu. Ele seguiu com seu caiaque, no qual carregava também uma bíblia. O que aconteceu depois ainda não está totalmente claro, mas a polícia indiana diz ter uma certeza: que Chau não sobreviveu.

Nesta quarta-feira, 21, autoridades indianas disseram que o americano foi atingido por flechas disparadas pelos nativos da ilha assim que chegou em terra firme e que seu corpo ainda estava na ilha. 

Pescadores que o ajudaram no caminho até Sentinela do Norte disseram à polícia que tinham visto membros da tribo arrastando o corpo na praia. Foi uma "aventura no lugar errado", disse Dependra Pathak, chefe de polícia nas Ilhas Andaman e Nicobar. "Ele certamente sabia que entrava em área proibida."

Pathak diz que Chau era do Estado de Washington e, possivelmente, tentaria converter a tribo para o cristianismo. Pouco antes de partir em seu caiaque, Chau deu aos pescadores uma longa carta. Nela, segundo a polícia, ele escreveu que Jesus havia lhe dado força para ir aos lugares mais restritos da Terra.

As Ilhas de Andaman e Nicobar, no Oceano Índico, são muito bonitas, cheias de palmeiras e cercadas por corais. O governo controla o acesso com muito cuidado: muitas das mais de 500 ilhas que formam o complexo têm o acesso proibido.

Em 14 de novembro, Chau contratou um barco de pesca em Port Blair, a principal cidade em Andaman, para levá-lo até Sentinela do Norte. Ele esperou escurecer para não ser detectado pelas autoridades.

T.N. Pandit, um antropólogo que visitou Sentinela do Norte várias vezes entre 1967 e 1991, disse que o povo local - cerca de 50 pessoas que caçam com lanças e flechas feitas de pedaços de metal que são levados pela maré até suas praias - era mais hostis aos desconhecidos do que outras comunidades indígenas que vivem nas ilhas de Andaman.

De acordo com os pescadores que o ajudaram, Chau colocou seu caiaque na água a menos de meio quilômetro da ilha e remou em direção a Sentinela do Norte. Os pescadores disseram que os indígenas atiraram flechas na direção do americano e que ele recuou. 

Ele teria tentado chegar à ilha várias vezes nos dois dias seguintes, segundo a polícia, oferecendo presentes como uma pequena bola de futebol, uma linha de pesca e uma tesoura. Mas na manhã de 17 de novembro, os pescadores disseram que viram os moradores da ilha carregando o corpo do americano.

Sete pessoas que ajudaram Chau a chegar à ilha foram presas e acusadas de homicídio culposo e violações de regras que protegem tribos aborígines. Outro caso foi registrado contra "pessoas desconhecidas" por matar Chau.

Autoridades já disseram, no entanto, que é praticamente impossível processar membros das tribos protegidas por causa da inacessibilidade da área e da decisão do governo indiano de não interferir em suas vidas. / NYT

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