Jacob Biba/The New York Times
Jacob Biba/The New York Times

Americano tem de pagar US$ 1 milhão por tratamento do pai que morreu de covid

Seguradoras e Congresso americanos estabeleceram regras para proteger os pacientes do coronavírus, mas as contas não pararam de chegar deixando alguns atolados em dívidas

Sarah Kliff / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 05h00

Um homem cujo pai morreu de coronavírus no ano passado usa uma planilha do Excel para organizar as dívidas pendentes. Ela tem 457 linhas, uma para cada uma das contas de seu pai, totalizando mais de US$ 1 milhão. Americanos como ele estão enfrentando a versão financeira prolongada da covid-19: eles viram suas vidas e finanças prejudicadas por contas médicas resultantes de uma batalha contra o vírus.

Suas escrivaninhas e mesas de centro têm pilhas de documentos de cobrança. Eles são fluentes no jargão da codificação médica do coronavírus, depois de centenas de horas de telefonemas discutindo as cobranças com hospitais, médicos e seguradoras. “As pessoas pensam que existe algum programa de alívio para contas médicas para pacientes com coronavírus”, disse Jennifer Miller, psicóloga que está trabalhando com um advogado para contestar milhares de dívidas pendentes de duas visitas ao pronto-socorro no ano passado. “Simplesmente não existe.”

Americanos com outras doenças graves regularmente enfrentam contas exorbitantes e confusas após o tratamento, mas  as coisas deveriam ser diferentes para os pacientes com coronavírus. Muitos grandes planos de saúde escreveram  regras especiais, dispensando copagamentos e franquias para internações por coronavírus. Quando médicos e hospitais aceitaram os fundos de resgate, o Congresso os proibiu de “cobrar o saldo” dos pacientes - a prática de buscar pagamento adicional além do que a seguradora pagou.

Entrevistas com mais de uma dúzia de pacientes sugerem que esses esforços foram insuficientes. Alguns com seguro privado estão arcando com os custos de seus tratamentos contra o coronavírus, e as contas podem chegar a dezenas de milhares de dólares.

“Há coisas que pesquisei e sabia que deveria fazer, mas tenho medo de ser pego de surpresa pelas contas”, disse Lauren Lueder, uma professora de 33 anos que mora em Detroit. Até agora, ela gastou US$ 7 mil de suas economias para pagar o tratamento. “Você acaba com uma bateria de testes e as coisas vão se somando. Não tenho renda disponível para pagar constantemente por isso."

Por dez meses, o New York Times rastreou os altos custos do teste e tratamento do coronavírus por meio de um banco de dados de múltiplas fontes que inclui mais de 800 contas médicas enviadas por leitores. Essas contas mostram que alguns hospitais não estão cumprindo a proibição de cobrança de saldo. Alguns estão codificando as visitas incorretamente, o que significa que as proteções especiais contra o coronavírus que as seguradoras implementam não são aplicadas. Outros estão perseguindo dívidas de pacientes que morreram com o vírus, buscando propriedades que, de outra forma, iriam para membros da família.

Hospitais e seguradoras dizem que tentaram se adaptar às diferentes orientações de faturamento para a pandemia, mas essa confusão pode surgir quando novos códigos de cobrança são criados e novas regras estabelecidas rapidamente.

Pacientes com coronavírus enfrentam custos diretos significativos: o dinheiro retirado de contas de poupança e aposentadoria para pagar médicos e hospitais. Muitos também estão lutando com custos indiretos, como as horas gastas ligando para provedores e seguradoras para saber o que é realmente devido e a tensão mental de se preocupar com como pagar.

Miller, como muitos outros pacientes, descreveu a tentativa de resolver suas complicadas contas médicas - no caso dela, divididas em pastas codificadas por cores - enquanto também lutava contra o 'brain fogo' sequela que afeta até metade dos pacientes com coronavírus.

“Eu tenho um Ph.D., mas isso está além das minhas habilidades”, disse ela. “Eu nem comecei a olhar minhas contas de 2021 porque ainda estamos lidando com contas de 2020. Quando as contas vêm sem parar, você só consegue lidar com uma certa quantia.”

Os pacientes que tentaram aproveitar as isenções de custos de suas seguradoras às vezes se veem frustrados por hospitais e fornecedores que não codificam suas contas como relacionadas ao coronavírus. Sem a codificação correta, aplicam-se as franquias normais e copagamentos dos pacientes.

Um paciente com coronavírus em Chicago relatou ter passado 50 horas tentando mudar o código de uma ressonância magnética, para mostrar que estava relacionado ao coronavírus. Sua seguradora pagará a conta inteira se isso acontecer - mas se não, ele é responsável por US$ 1.600. 

“Já ouvi muitas histórias de pessoas que ficam completamente impedidas de preencher formulários de reembolso e tentando obter seguro para cobri-los”, disse a senadora democrata Tina Smith, principal patrocinadora de um projeto de lei para tornar o tratamento do coronavírus gratuito. “É quase como se o sistema fosse projetado para dificultar o reembolso.”

Contas de herança

Alguns dos prejudicados financeiramente pela covid-19 nunca ficaram doentes, mas sim sobrecarregados com as contas que os entes queridos falecidos deixaram para trás.

Rebecca Gale, de 64 anos, perdeu seu marido, Michael, para o coronavírus no ano passado. O seguro deles cobria totalmente a maior parte da “grande pilha” de contas médicas que ela recebeu após a morte dele. Mas pagou apenas uma pequena parte da conta de US$ 50.009 da ambulância aérea para seu transporte entre hospitais quando sua condição estava piorando.

“Choro todos os dias; isso é apenas mais uma coisa que parte meu coração, que além de perder meu marido, eu tenho de lidar com isso", disse Gale.

O plano de seguro saúde da família limita sua cobertura de ambulâncias aéreas a US$ 10 mil, e a empresa de ambulância aérea passou meses buscando um adicional de US$ 40.009 da propriedade de seu marido. Rebecca Gale se aposentou no ano passado, de um emprego em uma fábrica de automóveis em Ohio, prevendo que passaria mais tempo com o marido. Depois que ele morreu e as contas começaram a aparecer, ela considerou procurar um emprego de meio período para ajudar a pagar as despesas.

As empresas de saúde têm liberdade de ação sobre o que fazer com as dívidas de pacientes mortos, às vezes buscando reembolso com seus bens.

A empresa de ambulância aérea, PHI Medical, se recusou a comentar sobre as contas de Michael Gale, mas disse em um comunicado que "seguia os requisitos regulamentares" para o faturamento de pacientes com coronavírus. A empresa cancelou as cobranças, no entanto, depois que o Times perguntou sobre elas.

Alguns pacientes com coronavírus estão adiando cuidados médicos adicionais para efeitos colaterais de longo prazo até que possam resolver suas dívidas existentes. Eles estão descobrindo que muitas sequelas do coronavírus geralmente requerem visitas a vários especialistas e muitos exames para resolver os sintomas persistentes, mas eles se preocupam em acumular mais dívidas.

Irena Schulz, de 61 anos, uma bióloga aposentada que vive na Carolina do Sul, contraiu o coronavírus no ano passado. Ela tem vários efeitos colaterais persistentes, incluindo problemas de audição e rins. Ela recentemente recebeu uma conta de US$ 5,4 mil em aparelhos auditivos (para ajudar na perda auditiva relacionada ao coronavírus) que ela esperava que seu seguro de saúde cobrisse.

Ela evita idas ao pronto-socorro quando se sente mal, porque se preocupa com os custos. Agora, está controlando sua dor relacionada aos rins sozinha, em casa, até sentir que pode se dar ao luxo de ver um especialista. “Continuo com o Tylenol e bebo muita água, e percebi que ajuda se eu beber muito suco de abacaxi”, disse ela. “Se a dor ultrapassar um certo limite, vou consultar um médico. Estamos aposentados, temos uma renda fixa e há tantas coisas que você pode acumular no cartão de crédito.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.