REUTERS/Alexandre Meneghini
REUTERS/Alexandre Meneghini

Americanos e cubanos continuarão sendo inimigos cordiais

Estados Unidos e Cuba não podem se dar ao luxo de continuar cultivando caquéticos antagonismos do século passado

MAC MARGOLIS, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2018 | 05h00

Miguel Díaz-Canel prestou juramento como novo presidente de Cuba. A transição é um marco histórico para a ilha-nação, pois, pela primeira vez em seis décadas, um Castro não está mais no comando. Ela também mudará o panorama mental de uma região que, mesmo com a lembrança de ditadores e do imperialismo ianque se esvanecendo, consegue ainda vibrar com a revolução. 

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Não se espere que Cuba vá mudar radicalmente de rumo. Embora Raúl Castro esteja oficialmente deixando o poder, ele continuará no mais alto escalão do Partido Comunista. Também não espere uma trégua na sexagenária desavença entre Havana e Washington, que só fez crescer sob Donald Trump. 

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No entanto, Cuba e os EUA são ligados por interesses estratégicos que continuam notavelmente sólidos, apesar do vitríolo que corre pelo Estreito da Flórida. E, mesmo com a diplomacia infectada, iniciativas políticas compartilhadas, acordos de cooperação técnica e forças-tarefa binacionais sobrevivem – em alguns casos, até ganharam força.

Não se trata apenas de ações de emergência, como a atuação conjunta da Guarda Costeira americana e da Guarda de Fronteira de Cuba, no início do mês, para socorrer um barco cheio de refugiados haitianos perdido no litoral cubano. Ou de quando, em fevereiro, bombeiros da ilha ajudaram a conter um incêndio florestal que ameaçava a base militar americana de Guantánamo – um gesto significativo, considerando-se quanto o enclave estrangeiro fere o orgulho cubano. 

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Cubanos e americanos, há muito tempo, coordenam esforços para patrulhar fronteiras marítimas, e apagar o incêndio em Guantánamo só foi possível graças a duas décadas de treinamento conjunto entre as tropas dos Estados Unidos e a Brigada de Fronteira cubana para enfrentar desastres naturais. 

O combate ao crime transnacional também aproxima os dois tradicionais inimigos. Embora nenhum dos lados proclame, Havana e Washington vêm colaborando há mais de duas décadas para interceptar carregamentos de drogas, prender traficantes de pessoas, combater cartéis internacionais do crime, lavagem de dinheiro e, mais recentemente, fraudes contra o Medicare americano. 

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Cooperação. Os EUA dizem que Cuba pode fazer mais na perseguição a criminosos internacionais. Entretanto, Grupo de Ação Financeira da América Latina, que congrega 16 países, reconheceu recentemente como “completos e consistentes” os esforços de Cuba para identificar grupos terroristas e bloquear seus recursos. 

“Cuba já foi um ponto cego no Caribe e, como tal, um santuário para criminosos internacionais”, disse William LeoGrande, professor da Universidade Americana. “No entanto, sua atuação conjunta com os EUA vem obrigando os narcotraficantes a mudarem de rotas e esse sucesso é uma das razões pelas quais muitos profissionais de segurança são contra reverter a política de Barack Obama de aproximação com Cuba.” 

Geoff Thale, especialista em Cuba do Washington Office on Latin America (Wola), concorda. “Houve seis intercâmbios de tecnologia entre Cuba e Estados Unidos somente no ano passado”, disse Thale, em entrevista. “Apesar do esfriamento por parte do governo Trump, está claro que a Guarda Costeira dos EUA, o Comando Sul e a DEA consideram Cuba uma importante barreira contra o crime.”

Não se trata de uma capitulação cubana à agenda de Washington, mas do pragmatismo que levou Cuba a adotar algumas reformas em sua economia caótica. “À medida que Cuba se reintegra à economia global e se liga a países da região, passa a entender os crescentes riscos trazidos pela lavagem de dinheiro e pelas organizações criminosas”, disse Thale. “Assim, é de seu interesse combater as duas coisas.”

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“Há uma crescente percepção de que um governo cubano estável e operante é uma importante força para a estabilidade hemisférica”, disse o sociólogo Bernardo Sorj, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Embora não exista muita afinidade entre EUA e Cuba, a pergunta que domina é o que acontecerá amanhã se Cuba se desestabilizar.”

Mais do que boa vontade entre vizinhos, a cooperação cubano-americana diz respeito a uma conscientização mais ampla dos desafios da segurança hemisférica – conscientização envelhecida por anos de uma diplomacia agressiva impulsionada por ideólogos da região, que ameaça ressurgir. Estados Unidos e Cuba têm tantos interesses e vulnerabilidades em comum que não podem se dar ao luxo de continuar cultivando caquéticos antagonismos do século passado. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É JORNALISTA, COLUNISTA DA 

BLOOMBERG VIEW E AUTOR DE 

‘THE LAST NEW WORLD: THE CONQUEST 

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