Americanos foram coniventes com tortura

Relatórios mostram como EUA ignoraram e até se beneficiaram com abusos no Iraque

, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Americanos foram altamente coniventes com atrocidades cometidas por iraquianos em diferentes prisões do país, demonstram os documentos vazados ontem pelo grupo independente WikiLeaks. Agressões físicas, queimaduras e outras formas de tortura, além de execuções de prisioneiros amarrados, são relatadas com detalhes no material, dando a impressão de que esse tipo prática era recorrente no submundo iraquiano.

Além de ignorar os abusos, autoridades dos Estados Unidos usaram a ameaça de tortura em prisões controladas pelas forças iraquianas para pressionar prisioneiros a fornecer informações.

Em um relatório, um soldado dos EUA ameaça mandar um prisioneiro para a Brigada Lobo - unidade da polícia iraquiana conhecida por sua violência - caso o iraquiano não cooperasse.

Oficiais americanos avisaram que seus colegas iraquianos estavam cortando dedos de prisioneiros e queimando os detentos com ácido. O procedimento das denúncias era quase sempre o mesmo: soldados dos EUA alertavam seus superiores, que às vezes notificavam autoridades iraquianas, mas nenhuma investigação séria era iniciada.

De acordo com um documento, um militar iraquiano de alta patente recusou-se a aceitar as queixas contra torturas "que não tinham deixado marcas". Um outro, chefe de política, defendeu os abusos por considerá-los "métodos eficientes de investigação".

A Anistia Internacional questionou ontem se a Justiça americana pretende apurar a conivência dos EUA com os abusos cometidos por iraquianos.

Ao entregar presos "em uma escala chocante" para forças do Iraque que, sabidamente, praticavam tortura, americanos estariam cometendo um crime de guerra.

Porões. Em dezembro, 12 militares iraquianos, incluindo um agente da inteligência, foram filmados na cidade de Tal Afar executando um prisioneiro. Apesar das provas explícitas, não está claro se uma investigação foi iniciada para apurar o caso.

Outro relatório de um militar americano conta como um policial militar do Iraque chicoteava presos com fios elétricos na cidade de Ramadi. O soldado dos EUA exigiu que o iraquiano parasse com o abuso, mas, dias depois, encontro o mesmo oficial flagelando outro preso novamente.

O escândalo da prisão de Abu Ghraib, quando americanos foram fotografados humilhando e cometendo abusos contra prisioneiros iraquianos, em 2004, fez autoridades dos EUA agirem de forma mais cautelosa.

Membros da Al-Qaeda na Mesopotâmia, a filial iraquiana do grupo de Bin Laden, foram separados dos demais presos. Regras mais rígidas também foram adotadas. / NYT

DENÚNCIAS

Mortes de civis

Mais de 100 mil iraquianos, entre eles 70 mil civis, morreram desde o início da guerra, em março de 2003, até o final de 2009. O total é 43% maior do que o admitido

publicamente pelo Pentágono

Abusos de prisioneiros

Forças de segurança iraquianas torturaram presos com o consentimento dos EUA. Denúncias de abusos não foram investigadas pelos americanos. Premiê teria "equipes encarregadas de cometer torturas e matanças

Treinamento iraniano

Azhar al-Dulaimi, um dos principais militantes xiitas do Iraque, recebeu treinamento da Guarda Revolucionária Iraniana e da milícia xiita libanesa Hezbollah. Teerã ainda forneceu armas e estaria ativamente engajado em atividades contra forças americanas e soldados das

tropas aliadas de Washington. Em alguns momentos, milicianos iranianos teriam diretamente atacado soldados dos Estados Unidos

Americanos no Irã

Alpinistas dos EUA acusados de invadir o território iraniano teriam sido presos no Iraque

Segurança privada

A guerra no Iraque expandiu a confiança nas empresas de segurança privada em nível recorde. Os documentos revelam a terceirização de combates e outras ações que deveriam ter sido realizadas por soldados. Algumas ocasiões eram registrados mais seguranças privados do que militares nas operações contra grupos insurgentes

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