Americanos mantém desinteresse por notícias internacionais

Num país poderoso e influente com os Estados Unidos, a falta de interesse do cidadão médio por assuntos internacionais pode ter conseqüências trágicas. Em maio de 2000, Johnnelle Bryant, um funcionária do Ministério da Agricultura, ouviu um certo Mohamed Atta fazer-lhe ameaças pessoais e elogios a Osama bin Laden, depois que ela apontou seus erros no preenchimento de um pedido um empréstimo do governo para comprar um avião pulverizador. No dia 11 de setembro do ano passado, Atta estava no comando do primeiro Boeing que se chocou contra o World Trade Center, em Nova York. "Eu não sabia quem era Osama bin Laden", disse Bryant, recentemente, ao explicar por que não reportou o episódio a seus superiores. "Para mim, ele podia ser um personagem da série Guerra nas Estrelas".A indiferença do público pode levar até editores de jornais, que têm a obrigação de saber quem é Osama bin Laden, a cometer erros de avaliação. No dia 8 de setembro de 2001, por exemplo, o New York Times publicou em sua versão eletrônica um artigo do repórter John Burns baseado em videoteipes recentes de Osama bin Laden e várias outras ameaças, sugerindo que a organização Al-Qaeda, liderada pelo renegado saudita, estava "claramente planejando algo contra os EUA". Mas a reportagem não foi usada na versão impressa do jornal e ficou apenas algumas horas em seu site na internet.Depois de 11 de setembro, editores de jornais, estudiosos dos meios de comunicação e cientistas políticos previram que os devastadores ataques fariam os americanos finalmente despertar para as realidades do mundo e forçariam os jornais, as revistas e as redes de televisão a ampliar sua cobertura sobre política externa e eventos internacionais, há anos em declínio.Não foi o que aconteceu, de acordo com dois estudos divulgados hoje durante uma conferência sobre o impacto dos atentados no noticiário internacional da grande imprensa americana. Uma sondagem com mais de 3 mil adultos, realizada pelo Centro de Pesquisa Pew, mostrou que nove meses depois dos ataques, apenas 21% dos americanos estão seguindo de perto as notícias internacionais, que incluem fatos ligados à política externa dos EUA. Antes de 11 de setembro, esse número estava em 14%. Mais significativa é a ausência de alteração na proporção dos que disseram que acompanham as notícias sobre o resto do mundo com menos intensidade. Antes eram 44%, hoje são 45%."Não houve a transformação que os cientistas políticos esperavam", disse Andrew Kohut, o diretor do Pew. "O modesto aumento aconteceu nas fileiras dos que já se interessavam pelo noticiário internacional". De acordo com a pesquisa, a principal razão mencionada pelos leitores americanos para explicar sua falta de interesse sobre o que se passa no resto do mundo, mesmo quando os eventos de fora de alguma forma os afetam é a falta de conhecimento sobre a história dos países envolvidos.Um levantamento paralelo realizado com 218 editores de jornais com mais de 30 mil exemplares de circulação, encomendado pelo Program Internacional de Jornalismo da Fundação Pew, confirmou que a frustração com a pobreza do noticiário internacional na imprensa permanece. Quase dois terços, ou 64% dos entrevistados, classificaram a cobertura internacional de seus jornais como apenas regular ou fraca. A quase totalidade dos editores entrevistados (95%) concordou que o interesse dos leitores por notícias internacionais aumentou depois dos ataques terroristas. Mas mais da metade (58%) previu que ele voltará ao que era antes. Eles indicaram também que o espaço dedicado a notícias do exterior está encolhendo aos acanhados níveis anteriores a 11 de setembro.

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