Mohammad Asif Khan/AP
Mohammad Asif Khan/AP

Americanos queimam documentos em meio à tomada iminente de Cabul pelo Taleban

Memorando interno pede destruição de materiais sensíveis e logotipos e bandeiras que possam ser usados indevidamente

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 16h28

CABUL - Em preparação para a tomada da capital afegã pelo Taleban, diplomatas americanos começaram a destruir documentos e equipamentos confidenciais da Embaixada dos EUA em Cabul. Um memorando interno obtido pelo The Washington Post pede a destruição de materiais sensíveis e “logotipos de embaixadas ou agências, bandeiras americanas ou itens que poderiam ser usados ​​indevidamente em esforços de propaganda”. O documento sugere que a equipe use incineradores, desintegradores e lixeiras do complexo.

As ordens foram dadas após o Departamento de Estado americano anunciar o envio de 3 mil soldados para retirar diplomatas do Afeganistão. De acordo com o governo americano, a missão diplomática continuará funcionando, mas com corpo reduzido ao mínimo -- a maioria dos funcionários civis será transferida para o Aeroporto Internacional Hamid Karzai, de onde deverá ser transportada para fora do país.

Em Washington, o Departamento de Segurança Diplomática do departamento começou a se preparar para uma crise, convocando voluntários com "Alta Ameaça, Alto Risco" e experiência no exterior para "operações potenciais 24 horas por dia, 7 dias por semana, apoiando a Embaixada dos Estados Unidos em Cabul", de acordo com um memorando separado enviado à equipe.

“A coisa toda está prestes a piorar”, disse um funcionário do Departamento de Estado que trabalha com questões de segurança. Como outros, o funcionário falou sob condição de anonimato.

Uma primeira leva de fuzileiros navais chegou ao aeroporto nesta sexta-feira, disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby, a repórteres. Espera-se que mais funcionários sigam em breve, acrescentou ele. Além de civis americanos, os EUA pretendem retirar afegãos que apoiaram o país e, portanto, podem se tornar alvos em potencial do Taleban. 

Aliados dos EUA também estão se preparando para retirada. O Reino Unido disse que vai enviar 600 soldados para ajudar os britânicos a partir. O país reduziu sua embaixada em Cabul a uma “equipe central focada em fornecer serviços consulares e de vistos para aqueles que precisam deixar o país rapidamente”.

O Canadá também enviará forças especiais ao Afeganistão para retirar funcionários de sua embaixada. Filhos de afegãos que trabalharam para o Canadá estão entre os que se abrigam lá, na esperança de serem resgatados, informou a agência de notícias canadense Global News.

Colapso é questão de tempo

As forças do governo afegão estão entrando em colapso mais rápido do que os líderes militares dos EUA esperavam. Desde o anúncio de retirada das tropas americanas, em abril, o Taleban promove uma ofensiva que já lhe deu controle efetivo de cerca de dois terços do país, embora tenha apenas cerca de 75 mil combatentes, frente a 300 mil soldados das forças afegãs treinados por americanos.

O grupo insurgente  capturou mais três capitais provinciais na quarta-feira, 10, e outras duas nesta quinta-feira, 11. Entre os territórios capturados, está a terceira maior cidade do país, Herat.

Um alto funcionário do governo Biden disse em uma entrevista que o Taleban pode em breve tomar Mazar-i-Sharif, a capital da província de Balkh e o motor econômico do país. A queda de Mazar-i-Sharif e Kandahar, disse o funcionário, pode levar à rendição do governo afegão até setembro.

Nesta sexta-feira, altos funcionários e soldados afegãos no oeste e no sul do país se renderam ao Taleban. Na conquistada Herat, todo um corpo do exército afegão desmoronou, com centenas de soldados entregando suas armas ao Taleban e outros fugindo, segundo autoridades locais. O acordo de rendição foi negociado na noite de quinta-feira emtre um grupo de líderes do Taleban, o governo afegão e as forças de segurança.

O governador da província, o chefe de inteligência, o chefe de polícia e um importante líder da milícia anti-Taleban também renunciaram a seus cargos em troca da proteção do grupo, disse Ghulam Habib Hashimi, um oficial legislativo.

Na província de Helmand, no sul, centenas de outras forças afegãs se renderam, cedendo o controle da capital, Lashkar Gah, de acordo com Mirwais Khadem, um membro do parlamento. E em Kandahar, o controle do governo recuou para o aeroporto da cidade e a base militar adjacente.

Sayed Ahmad Seylab, membro do conselho provincial, disse que as forças e oficiais afegãos se retiraram do principal complexo do governo em Kandahar para "evitar baixas civis e a destruição da cidade de Kandahar".

Com o avanço pelo sul do país nesta sexta-feira, os insurgentes controlam metade das 34 capitais de província do Afeganistão. Na sexta-feira, os combatentes conquistaram as capitais das províncias de Ghowr, Zabul, Logar e Uruzgan, o maior número em um único dia.

Todos os olhos estão em Cabul, à medida que o Taleban gradualmente se aproxima da capital.

Negogiações

A operação anunciada na quinta-feira indica que o governo Biden tem dúvidas sobre a capacidade do governo afegão de fornecer segurança diplomática suficiente na capital. Paralelamente, negociadores americanos tentam obter do Taleban alguma garantia de que a embaixada não será atacada, disseram duas autoridades ao The New York Times. 

O esforço, liderado por Zalmay Khalilzad, principal enviado americano em negociações com o Taleban, visa evitar o esvaziamento total da embaixada. Khalilzad espera convencer os líderes do Taleban de que a embaixada deve permanecer aberta e segura, se o grupo espera receber ajuda financeira americana e outras assistências como parte de um futuro governo afegão.

Outros governos também estão alertando o Taleban de que o grupo não receberá ajuda se dominar o governo afegão à base da violência. Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, disse que Berlim não daria ao Taleban nenhum apoio financeiro se eles governassem o Afeganistão com uma lei islâmica linha-dura.

A liderança do Taleban disse que o grupo quer ser visto como um administrador legítimo do país e está buscando relações com outras potências globais, incluindo Rússia e China, em parte para receber apoio econômico./The Washington Post

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